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sábado, 5 de novembro de 2011

O Estagiário


Fui demitido. Justa causa.
Como estagiário, aprendi milhões de coisas e fui muito bem sucedido nas minhas funções. Juro que não entendo o porquê de me demitirem…
Eu tinha várias funções que fazia com excelência, entre elas:

1. Tirar xerox. 3.1 segundos por página.
2. Passar café.
3. Comprar cigarro e pão. 1 minuto e 27 segundos. Ida e volta.
4. Fazer jogos na Mega-Sena, Dupla-Sena, Lotofácil, Loteria Esportiva…

Eu era muito bom. Mesmo. Fazia tudo certinho, até que peguei uma certa confiança com o pessoal e resolvi fazer uma brincadeirinha inocente.
É impressionante o nível de stress em um ambiente de trabalho. Quis dar uma amenizada na galera, deixar o povo feliz e fui recompensado com uma bela de uma demissão por justa causa. Puta sacanagem!

Vou contar toda minha rotina desse dia catastrófico.

Era quinta-feira, 27 de março, quando cheguei ao trabalho. Nesse dia, passei na padaria no meio do caminho. Demonstrando muita proatividade, comprei pão e 3 Marlboro. Já queria ter na mão sem nem mesmo me pedirem. Quando abri a agência (sim, me deixam com a chave porque o pessoal só começa a chegar lá pelas 11h), já vi uma montanha de folhas para eu xerocar na minha mesa. Xeroquei tudo, fiz café e deixei tudo nos trinques (minha mãe que usa essa gíria).
Como tinha saído um pouco mais cedo no outro dia, deixaram um recado na minha mesa: “pegar o resultado da mega-sena na lotérica”.
Como tinha adiantado tudo, fui buscar o resultado. No meio do caminho, tive a ideia mais genial da minha vida e, consequentemente, a mais estúpida.
Peguei o resultado do jogo: 01/12/14/16/37/45. E o que fiz? Malandro que sou, peguei uns trocados e fiz uma aposta igual a essa. Joguei nos mesmos números, porque, na minha cabeça claro, minha brilhante ideia renderia boas risadas. Levei os 2 papeizinhos (o resultado do sorteio e minha aposta) para a agência novamente.

Ainda ninguém tinha dado as caras. Como sabia onde o pessoal guardava os papeis das apostas, coloquei o jogo que fiz no meio do bolinho e deixei o papel do resultado à parte.
O pessoal foi chegando e quase ninguém deu bola pros jogos. Da minha mesa, eu ficava observando tudo, até que um cara, o Daniel, começou a conferir.
Como eu realmente queria deixar o cara feliz, coloquei a aposta que fiz naquele dia por último do bolinho, que deveria ter umas 40 apostas.
Coitado, a cada volante que ele passava, eu notava a cara de desolação dele. Foi quando ele chegou ao último papel.
Já quase dormindo em cima do papel,vi ele riscando 1, 2, 3, 4, 5, 6 números. Ele deu um pulo e conferiu de novo.
Esfregou os olhos e conferiu de novo, hahahaha. Tava ridículo, mas eu tava me divertindo.
Deu um toque no cara do lado, o Rogério, pra conferir também.
Ele olhou, conferiu e gritou:
-”PUTA QUE PARRRRRRRRIUUUUUUUUUU, TAMO RICO, PORRA”. Subiu na mesa, abaixou as calças e começou a fazer girocóptero com o pau.
Óbvio que isso gerou um burburinho em toda a agência e todo mundo veio ver o que estava acontecendo.
Uns 20 caras faziam esse esquema de apostar conjuntamente. 8 deles, logo que souberam, não hesitaram: correram para o chefe e mandaram ele tomar bem no olho do cu e enfiar todas as planilhas do Excel na buceta da arrombada da mulher dele.
No meu canto, eu ria que nem um filho da puta. Todos parabenizando os ganhadores (leia-se: falsidade reinando, quero um pouco do seu dinheiro), com uns correndo pelados pela agência e outros sendo levados pela ambulância para o hospital devido às fortes dores no coração que sentiram com a notícia.
Como eu não conseguia parar de rir, uma vaquinha veio perguntar do que eu ria tanto.
Eu disse:
-”puta merda, esse jogo que ele conferiu eu fiz hoje de manhã.
A vaca me fuzilou com os olhos e gritou que nem uma putalouca:
-”PAREEEEEEEEEEM TUDO, ESSE JOGO FOI UMA MENTIRA. UMA BRINCADEIRA DE MAU GOSTO DO ESTAGIÁÁÁÁÁÁÁRIO”
Todos realmente pararam olhando pra ela. Alguns com cara de “quê?” e outros com cara de “ela tá brincando”.
O cara que tava no bilhete na mão, cujo nome desconheço, olhou o papel e viu que a data do jogo era de 27/03.
O silêncio tava absurdo e só eu continuava rindo. Ele só disse bem baixo:
- É…é de hoje.
Nesse momento, parei de rir, porque as expressões de felicidade mudaram para expressões de ‘vou te matar’.
Corri… corri tanto que nem quando eu estive com a maior caganeira do mundo eu consegui chegar tão rápido ao banheiro.
Me tranquei por lá ao som de “estagiário filho da puta”, “vou te matar” e “vou comer teu cu aqui mesmo”. Essa última foi do peladão !
Eu realmente tinha conseguido o feito de deixar aquelas pessoas com corações vazios, cheios de nada, se sentirem feliz uma vez na vida.

Deveriam me dar uma medalha por eu conseguir aquele feito inédito.
Mas não… só tentaram me linchar e colocaram um carimbo gigante na minha carteira de trabalho de demissão por justa causa. Belos companheiros!
Pelo menos levei mais 8 neguinho comigo ! Quem manda serem mal educados com o chefe. Eu não tive culpa alguma na demissão deles.
Pena que agora eles me juraram de morte…agora tô rindo de nervoso.
Falei aqui em casa que fui demitido por corte de verba (consegui justificar dizendo que mandaram mais 8 embora) e que as ligações que tenho recebido são meus amigos da faculdade passando trote.

É, amigos, descobri com isso que não se pode brincar em serviço mesmo…


(infelizmente não sei quem escreveu essa...)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Uma Crônica Crônica

Certa vez, caminhando pela cidade, sob um sol dos diabos, deparei-me com uma cena, no mínimo, constrangedora: um pedreiro gritava para o seu servente, que misturava a massa, em uma construção:
- Ô, fia  da puta, anda logo aí, carai! Fica encebano, aí, e atrasano a obra toda, cacete! - E o servente resmungava alguma coisa inaudível, conforme recebia a bronca de seu superior.
Cheguei aonde o resmungão se encontrava. E reconheci-o: era um antigo amigo, que há muito não via, com o qual estudei no ensino médio.
Por ele estar trabalhando e, também, por tê-lo visto receber aquela bronca, queria passar despercebidamente, para que ele não se sentisse constrangido. Mas, não se importando nem um pouco com a situação vexatória à qual foi exposto, e nem com a possibilidade de uma outra, ao me ver, foi logo falando:
- Porra, Luís! Nem reconhece mais os amigos?
- Eita, Lucas! Você por aqui? - e fui logo mentindo -  Nem o tinha visto! Há quanto tempo, rapaz?! Tudo certo com você?
- Pois é, Luís... Tô bem, sim... e na labuta! - referindo-se, ironicamente, ao trabalho, enquanto ria.
Parou de mexer a massa, se apoiou na enxada - E você, como tá, velho?
- Bem, também... - e, meio "assim" de estar falando com ele em horário de serviço - Velho, deixa eu ir, que devo estar te atrapalhando no serviço. Depois a gente conversa...
- Que nada, Luís. De boa... - disse ele, sossegadamente - Pode ficar tranquilo que o trabalho, aqui, é "sussa"... - e, dando continuação ao papo - Tá sumido, cara! Que que tem feito?
Constrangido por continuar a conversa e atrapalhar o trabalho dele, mas sem opções de fuga, dei uma resposta bem resumida, para que a conversa nao se prolongasse: - Então... Me mudei; estou cursando a faculdade, aqui; e estou trabalhando...
- Hummmm... Os caras me disseram que você tinha mudado... - e, sem se importar com a situação em que estava e se contrapondo à minha vontade de um diálogo breve, perguntou - E tá morando onde?
"Caralho, fodeu!", pensava eu "Quer ver o cara ser demitido na minha frente e por minha culpa? Ou então eu tomar um fumo do patrão dele, por estar aqui, conversando com ele...".
Mal respondi e ele já mandou outra: - E tá fazendo faculdade do que?
- Letras...
- O QUÊ? LETRAS? VAI VIRAR PROFESSOR, ENTÃO?! HUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAU... - e desandou a gargalhar escandalosamente, deixando-me extremamente constrangido. Dei um leve riso, curto e amarelo, de tão sem graça que estava e ele continuou com a pilhéria - MEU DEUS, LUÍS! VAI PAGAR TODOS OS SEUS PECADOS COMO ALUNO, AGORA! SE FODEU DE JEITO...
A terra parou. Antes de começar o curso, eu nunca havia parado para analisar essas coisas: quantos e quantos professores eu não infernizei, gritando palavrões, tirando sarro de suas caras, fazendo guerras de papéis, giz e apagadores e tantas outras coisas mais, que fiz, até quase ser expulso? (Ainda bem que minhas notas eram boas...) Mas aquelas palavras me fizeram pensar, enquanto meu amigo ainda se escarnecia de mim, "meu amigo... dessa vez você REALMENTE se fodeu..."
Nem me lembro como me desvencilhei da conversa - será que o deixei rindo sozinho? Talvez ele ainda esteja rindo de mim, lá, sem perceber que fui embora...
E, no fim disso tudo, só me pergunto uma coisa: desde quando ser professor se tornou um Karma tão ridicularizado, assim?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Gato Sou Eu


- Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu!


(Fernando Sabino)