Mostrando postagens com marcador extraordinário. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador extraordinário. Mostrar todas as postagens

domingo, 7 de agosto de 2011

Rosa Negra Imortal

Em nome do desespero
Chamo o teu nome
Uma lamentação que suspiro
Repetidamente

Eclipse espiritual
Os portões se fecharam para a minha procura
À noite...
Um véu de estrelas, olhando
Minha sombra nasce da luz
A luz do olhar, na escuridão

Sobre águas turbulentas as memórias pairam
Infinitamente, procurando por dias e noites
A luz da lua acaricia uma colina solitária
Com a calma de um sussurro

Visto uma alma nua
Um semblante pálido na água fluente
Está frio aqui
A geada marcou meu casaco com o pó

Os olhos que se fixam no teu mudo retrato
Nós falávamos apenas por pensamentos
Juntos nós contemplamos, e esperamos
As horas trouxeram a sede e o sol nascente

Os pássaros abandonam seus descansos
As sombras douram as arcadas

Não vire o rosto em minha direção
Confrontando-me com a minha solidão
Você está numa floresta desconhecida
O pomar secreto
E a tua voz é vasta e acromática
Mas ainda tão preciosa

A canção de ninar da lua crescente te levou
Hipnotizado, seu semblante caleidoscópico
Presentou-te com um olhar vazio
Outra alma dentro do rebanho divino

Eu o guardei,
O símbolo do amaranto
Escondido dentro do templo dourado,
Até que nos regozijemos nos campos
Do fim
Quando nós dois andarmos pelas sombras
Ele queimará e desaparecerá
Rosa Negra Imortal

Está escurecendo novamente
O anoitecer se move por entre os campos
As árvores noturnas lamentam, como se soubessem que
À noite, eu sempre sonho contigo...

(Black Rose Immortal - Opeth)

domingo, 17 de julho de 2011

A Mariposa


Queria ficar sozinha. Principalmente depois daquela semana – a pior de sua vida, segundo ela. Cobranças, discussões e brigas eram algumas das suas principais pressões para desejar aquilo. E vinham de todos os lados: família, trabalho, amigos, colegas, namorado… Todos estavam contra a pobre Patrícia. E o pior é que ela nem sabia o porquê ou o que eles queriam. E, por isso, queria ser deixada em paz, para poder aliviar-se de toda essa pressão que vinha sofrendo.
Certa noite, após uma feia briga com os pais, foi dormir triste e cheia de raiva. E não com raiva só de seus pais, mas sim de todos que a cercavam. Se era pra viver daquela forma, preferia que eles não existissem. Só isso desejava naquela noite. Ficar sozinha e mais nada.
E seu desejo era tão grande que chegou a sonhar que estava sozinha. E, em seus sonhos, tudo era alegria e cores. Visões melodiosas envolviam-na, fazendo-a sentir-se livre: podia voar – os pesos que a prendiam à terra não existiam.
E então, em meio àquela viagem onírica, lembrou-se de que tudo aquilo não passava de um sonho. E, em sonho, despencou dos céus, com suas asas em chamas e os olhos cheios de lágrimas. Mas as lágrimas rompiam o surreal, estendendo-se à realidade da jovem Patrícia. Chorava. Desejava não ter ninguém com quem brigar. Ninguém que a sufocasse. Desejava ficar sozinha e só isso.
O sonho é algo espantoso. Às vezes rompe totalmente com a realidade – e de tal maneira que, ainda dormindo, percebemos que um sonho se desenrola. Mas, em outras, se aproxima de tal forma do real, que chegamos a sentir até cheiros, sabores e textura. São quase que impossíveis de se distinguir da realidade.
Há alguns casos, ainda, onde revivemos fatos nos mínimos detalhes. E também, outros, em que, percebido após sua concretização, ainda viveremos. No entanto os sonhos da bela jovem tinham um quê a mais: um quê de desejo. Um desejo ardente. Uma chama na escuridão da noite.
Fato é que muitos seres sentem-se atraídos pela luz. A mariposa, por exemplo.
Só que é fato, também, que ela acaba se expondo e ficando vulnerável por essa atração. Predadores escondem-se por detrás das sombras que a luz propaga – sempre à espreita.
E quem, de ouvidos em pé, a espreitava nas sombras, era o Mestre dos Desejos: como quem apanha uma mariposa se batendo contra a luz com um frasco, ouviu-a. Assim, “capturou-a”: sem nada saber, a jovem que desejava ficar sozinha, foi atendida.
Acordou e dirigiu-se para a cozinha. Não havia café pronto. Ficou indignada com os pais, que levantavam antes dela.
Saiu sem nada comer e dirigiu-se para o ponto de ônibus. Esperou, sem notar que não havia um único ser vivo se movendo por perto. Estava possessa pela situação que passava e pela “ingratidão” de seus pais.
Após uma hora de espera, e já atrasada, resolveu seguir a pé. Estava cega de raiva. Não notava que o grande fluxo de carros e pessoas, comum a esse horário, não existia.
Chegando a seu local de trabalho, encontrou tudo aberto e ligado, mas sem ninguém ali. Tentou encontrar os seus companheiros de trabalho, tentando imaginar “que tipo de brincadeira seria essa”. E, obviamente, sem sucesso.
Saiu do prédio, correndo, e ficou desesperada ao perceber que não havia absolutamente nada se movendo. Era como se, do nada, todos tivessem sumido. E não era isso que ela desejava?
Voltou para casa. Estava em pânico. E seus pais? Estariam em casa? Estariam no trabalho? Estariam bem? Chegou e entrou correndo em direção ao quarto dos pais. Não estavam lá. Mas seus documentos, carteiras bolsas… tudo estava ali. Tudo, menos eles.
Tremia. Teria enlouquecido? Estaria sonhando? Sim! Um sonho! Um sonho, daqueles bem reais! Não, um sonho não: um pesadelo. Isso! Queria acordar. Mas como fazê-lo? Sentou-se. Respirou fundo. Tudo era real demais! E se aquilo não fosse só um sonho? Tentou afastar esse pensamento. Dormir. Isso! Dormiria e, quando acordasse, o pesadelo teria acabado. Ou, então, seus pais teriam tempo de chegar. Estivessem onde estivessem.
 Foi até a farmácia da casa e engoliu diversos comprimidos, sem nem ler para o que serviam. Se tudo era apenas um sonho, não lhe fariam mal. Além disso, remédios dão sono, não é?
A jovem foi acometida por uma pesada sonolência em pouco tempo. E desabou. Dormiu por quase um dia todo, devido aos remédios.
Ao acordar, seu terror foi ainda maior do que antes: percebeu que, de uma forma impossível e sobrenatural, todas as pessoas haviam desaparecido. Na cidade toda. Talvez, até, no mundo todo. Como aquilo poderia ter acontecido?
Rindo, o Mestre dos Desejos se perguntava “mas não era isso o que queria?”, enquanto assistia a mariposa batendo-se, desesperada e ensandecidamente, dentro do frasco, até que acabasse por se matar, exaurindo as suas últimas forças. E sem saber o que a prendia.

sábado, 9 de julho de 2011

amorte

Conheceram-se ainda pequenos. Eram vizinhos e tinham a mesma idade. E desde que eram crianças, por volta dos quatro ou cinco anos, não conseguiam ficar longe um do outro. Chegaram ao ponto de fugir de casa para ficarem inocentemente juntos. Amavam-se incondicionalmente, antes mesmo de descobrir o que era o amor.
Cresceram unidos, quase que como irmãos. Mas, aos poucos, descobriram que o que sentiam um pelo outro estava muito além do que imaginavam. Por volta dos dezesseis anos começaram a namorar. Era um romance quase perfeito. Raramente discutiam. E quando discutiam era quase que uma brincadeira. A verdade é que um completava perfeitamente ao outro.
Os anos foram se passando, sem conseguir separá-los. Até que chegou o tempo de escolherem suas profissões. Ela queria ser professora; ele, médico. Pelo amor que nutriam, sabiam o que era melhor para cada um deles. Então, sem nenhuma objeção, decidiram por se separar durante o período dos estudos, encontrando-se durante as férias ou feriados prolongados. Então ela foi para o sul e ele para a Europa.
Durante o tempo dos estudos, mantinham contato diariamente, por telefone ou vídeo-chamadas; nas férias, alternadamente, um visitava o outro. Assim, mesmo distantes, estavam sempre próximos.
Depois de algum tempo nessa situação, os dois se formaram. E não mais perderam tempo – se casaram.
Começa, assim, a terrível tragédia do jovem casal Maia. E, para amenizar o sofrimento das famílias, pouparei o nome dos jovens.
Os primeiros anos após o casamento se aproximaram do divino, tamanho o amor e as saudades que ambos sentiam. A cada dia se apaixonavam ainda mais e mais. Além disso, a formação dos dois propiciou abastamento econômico, sem nenhum deles precisar recorrer às fortunas dos pais.
Cinco meses se passaram em total felicidade e harmonia. Um só tinha olhos para o outro. E então decidiram demonstrar ainda mais esse amor tendo um filho. Mas não o puderam. Feitos alguns exames, o Sr. e a Sr.ª Maia descobriram-se estéreis.
A tristeza do casal foi enorme. Queriam poder dar esse presente um ao outro. E, depois de algumas semanas e ainda tristes, decidiram por adotar uma criança recém-nascida, por mais que fossem demorar os documentos da adoção.
Porém, antes mesmo de darem início ao preenchimento dos formulários, um novo sofrimento se abateu sobre o jovem casal: a jovem Senhora adoeceu. Foi acometida por uma terrível e devastadora doença degenerativa, uma espécie rara de leucemia.
Desesperado, o Sr. Maia tentava todos os tipos de tratamentos possíveis, para que a doença de sua esposa parasse de evoluir e para que melhorasse. Mas não obtinha sucesso.
Investia tempo e dinheiro em pesquisas e projetos que visavam a cura ou a diminuição do impacto que a doença causava. E sempre sem deixar sua amada. Passava horas com ela, mesmo sofrendo por vê-la naquela situação. Não entendia porque tamanha tragédia se abatera sobre ela. E em todos os momentos desejava ser ele na situação da esposa, para não precisar vê-la naquela situação.
Por outro lado, a jovem agradecia por a doença tê-la afligido e não ao marido. Por mais que estivesse sofrendo, alegrava-se em ver o esposo bem e saudável, e achava que ele não deveria dar tanta atenção a ela e ao seu estado.
E a situação da jovem só piorava. As forças vitais lhe eram bruscamente sugadas. A morte rapidamente se aproximava dela.
O miserável homem já não sabia o que fazer. Desmanchava-se em lágrimas ao lado da mulher amada e que agora definhava. Não suportava a ideia de perder o amor de sua vida. Sua cabeça girava e ele não sabia, mais, o que fazer. Clamava a deus por alguma solução, mas sempre sem resposta. Desejava, mais do que tudo, ver a sua mulher em pé, saudável. A dor de vê-la naquela situação era o seu próprio inferno. Via a maior preciosidade de sua vida se esvair, aos poucos, e de forma tão triste.
Os dias passavam vagarosamente. E não deixava de parecer ao jovem Sr. Maia que tais dias eram como punhais cravados em suas costas pelo destino – ou seria por deus? Quem permitira tamanho sofrimento ao ser que ele tanto amava? Era justo fazê-los sofrer de tal maneira, sendo eles um casal tão generoso e batalhador? Não escolheram suas profissões visando o bem-estar de outras pessoas? Não chegaram ao ponto de sacrificar parte do tempo que passariam juntos por tais profissões? O homem levantava questões em relação a toda sua vida. Queria respostas para entender o que se passava. Mas nada conseguia. Jurava à sua amada morrer junto com ela, embora ela não gostasse dessa ideia.
Certa noite, após dias sem dormir, acabou por cochilar ao lado da amada. Um sono conturbado, cheio de pesadelos com temas de morte. Foi acordado pelos enfermeiros. A mulher não mais estava ali – fora levada às pressas. Os médicos diziam que seriam as últimas horas da jovem.
O homem entrou em desespero, não podendo fazer nada. Também não podia vê-la. Os médicos trabalhavam para mantê-la viva.
O que poderia fazer para salvá-la? Pensava e repensava sem encontrar soluções.  Não queria que ela morresse, de forma alguma. Mas, acaso sua morte viesse a acontecer, se mataria no mesmo instante. Já tinha até preparado um veneno, que carregava, escondidamente, ao alcance das mãos. Se recebesse a notícia, o beberia no mesmo instante.
Estava pensativo na sacada do antigo leito da esposa, que ficava no oitavo andar do prédio. Olhava desoladamente para as pessoas que passavam, lá embaixo. Via o quão pequenos eram e o quão frágil e ínfima era a vida que os seres humanos tinham. Desejou, naquele momento, ser mais que um simples homem, ter poderes para salvar a mulher que amava. Fechou os olhos e desejou, de toda a sua mente e alma, que sua mulher melhorasse, não importando o preço – mesmo se o preço fosse a sua vida. Estava disposto a se sacrificar pela esposa. Queria morrer junto com ela.
Cortou a tela de proteção da sacada com um bisturi que carregava no bolso. Preparava-se para pular. Já que o que mais amava estava prestes a morrer, por que viveria mais? Não! Tudo acabaria ali. Levaria como lembrança final a imagem da esposa ainda viva, por mais debilitada que estivesse.
Era chegada a hora. Subiu no parapeito da janela. Nesse mesmo instante, enfermeiros entraram apressadamente no quarto, gritando e chamando pelo Sr. Maia, mas sem saber o que acontecia na janela e se depararam com o homem ereto, de costas e de braços estendidos, pronto para se atirar.
Desesperados, pediam para o homem voltar. Mas ele nem os ouvia. Os enfermeiros insistiam, mas sem obter reação do homem. Então disseram que o estado de sua esposa havia se estabilizado. Ele abriu os olhos, carregados de lágrimas, e se virou. Abaixou os braços, mas não desceu. E repetiram: o estado da mulher era, agora, estável.
Sem acreditar, o homem não aceitava o que diziam, mesmo com eles dando sua palavra de que, de fato, ela havia, realmente, melhorado. Virou-se, novamente – iria pular –, quando, de repente, caminhando sozinha, embora acompanhada de médicos e enfermeiros, entrou no quarto a jovem Senhora Maia – um milagre havia acontecido! –, que o chamou.
O homem se virou vagarosamente. Poderia acreditar em seus ouvidos? Estaria sonhando ou ouvindo vozes de outros mundos? Viu-a em pé, ao lado da equipe médica. Empalideceu, sem conseguir acreditar no que via. Suas pernas fraquejaram e ele perdeu o equilíbrio: caiu. Só que caiu para a frente, na sacada, de joelhos. A mulher andava em sua direção. Segurou-lhe a cabeça e beijou-lhe a testa. Disse-lhe sentir-se melhor – e mais ainda por estar ali, com ele. E então os dois desmoronaram em lágrimas.
Vendo os novos diagnósticos da mulher, os médicos ficaram embasbacados: o sangue dela estava, agora, curado, sem sinal nenhum da doença. Um milagre, realmente, havia ocorrido. Apesar disso, ela ainda ficou alguns dias em observação. Uma semana depois, recebeu alta, saudável, como antes.
O casal voltou para casa. Não se aguentavam de alegria. Decidiram dar um tempo de outras coisas e se curtirem. Planejaram uma segunda lua de mel, com viagens e tudo o que teriam direito. Recuperariam o tempo perdido.
Na mesma noite decidiram fazer um romântico jantar à luz de velas. Prepararam tudo para que ficasse perfeito.
As horas se passavam, e o jantar com elas. O Sr. Maia se levantou para pegar as sobremesas e , quando voltava, tropeçou no tapete e caiu, batendo a cabeça em uma cadeira e desfalecendo. A esposa se levantou rapidamente para acudir o marido. Mas acabou escorregando no sorvete, espalhado pelo chão, e caindo, também. Na queda esbarrou na mesa, com força o suficiente para derrubar o candelabro. As velas acesas caíram sobre o tapete, por onde o fogo se espalhou.
A mulher, assustada e com dificuldade de locomoção, devido à pancada, engatinhou até o marido e tentou despertá-lo.
As chamas se espalhavam rapidamente, visto que a maioria dos móveis eram feitos de madeira e que o chão todo era revestido por um carpete sintético.
O homem despertou, com dificuldade. Tentaram ficar em pé. Mas devido, justamente, ao carpete sintético, o fogo produzia muita fumaça, que acabou por tomar conta do lugar e que fez com que o casal desmaiasse. Assim, morreram os dois: juntos e abraçados, incinerados em sua própria casa, que foi totalmente consumida pelas chamas.
Feita a perícia, descobriram que o sistema anti-incêndios havia sido desligado pela diarista, durante o período em que os donos da casa estavam no hospital, já que não haveria ninguém por ali. Isso explicava o porquê da casa ter sido incinerada tão rapidamente.
O que ninguém jamais saberia é que, no mesmo momento em que o pobre Sr. Maia oferecia sua vida em troca da cura e recuperação da esposa, o próprio diabo havia aceitado a sua oferta: curou-a e levou a vida dos dois, juntos.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Carolina IV - Insânia


A cada dia que passa, acredito com maior veemência estar, realmente, no inferno. As coisas que tenho visto fogem de tudo o que é concebível e aceitável para a mente humana. A situação se tornou enlouquecedora. E não sei como eu mesmo ainda não enlouqueci.
Depois do fatídico e atormentador acontecimento, do qual fomos protagonistas, não mais nos falávamos. Todos se isolaram, cada um em um canto. E creio que esse foi o nosso erro… A situação em que nos encontramos requer companheirismo, alguém para poder desabafar nossas angústias e desesperos… Ou, então, enlouqueceríamos…
E foi justamente o que aconteceu com meus companheiros. Enlouqueceram totalmente. Ter que consumir daquela carne maldita, da própria urina e permanecer isolados deve ter mexido demais com suas mentes. Agora se portam, realmente, como animais: não conversam, apenas gritam e urram. Seus olhos apresentam uma expressão assustadoramente desvairada, com aquele brilho que somente os loucos têm no olhar.
É assustador ficar, aqui, com eles… Vejo-os pela escotilha. Agora, mesmo, há dois brigando. E é uma luta insanamente violenta. Usam pedaços de pau como armas. E parecem não sentir dor. Um deles já está com um dos braços visivelmente quebrado, mas não para nem por um minuto. Mais cedo, essa mesma criatura matou um dos outros em combate. Foi onde conseguiu a fratura. O corpo ainda jaz no convés. O combate começou, inclusive, pelo domínio da carcaça. E, por mais que só comam quando tem fome, têm o instinto de guardar o alimento.
Evito comer ao máximo dessa carne… Ainda mais agora, com esses loucos rondando a embarcação. Continuo vivo graças aos ratos.
Trouxe um pouco daquela carne, antes de me trancar aqui e a tripulação enlouquecer. E, por deixá-la exposta, uma grande quantidade de ratos apareceu para comê-la. E, por pior que seja a situação, a carne dos mesmos é melhor do que a humana. Fora o fato de que os ratos acabam sendo uma distração. E acho que essa distração me impediu de ficar como as criaturas, lá fora… Isso e o fato de continuar escrevendo, o que me ajuda a esquecer da situação. Mas é difícil…
O louco do braço quebrado acaba de ter o olho arrancado pelo outro. Mesmo assim não para o confronto. Rolam selvagemente pelo chão, em cima das poças de sangue. O homem do braço quebrado teve, agora, a orelha arrancada com uma mordida. E mesmo assim a luta prossegue.
Fico imaginando o quanto e o que, mais terei que suportar até, enfim, morrer – se é que morrerei… Não são as torturas do inferno eternas?



Miguel Augusto, condenado do Carolina IV
12 de junho de 1500

(Continua...)

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O Travesseiro de Penas


Sua lua-de-mel foi um longo calafrio. Loura, angelical e tímida, o temperamento sisudo do marido lhe gelou as sonhadas fantasias de noiva. E no entanto ela o amava muito, às vezes com um ligeiro estremecimento quando, à noite, voltando juntos para casa, dava uma furtiva olhadela à alta estatura de Jordán, que na última hora não pronunciara uma só palavra. Ele também a amava muito, profundamente, mas sobre isso não dizia nada.
Durante três meses – casaram-se em abril – viveram uma felicidade peculiar. Certamente ela teria desejado menos sobriedade nesse rígido céu de amor, uma ternura mais expansiva e menos controlada. Mas o impassível semblante do marido sempre a refreava.
A casa onde moravam também contribuía para seus calafrios. A brancura do pátio silencioso
– frisos, colunas, estátuas de mármore – produzia a outonal impressão de um palácio encantado. Dentro, o brilho glacial do estuque, sem uma única e superficial fissura nas altas paredes, corroborava a desconfortável sensação de frio. Na passagem de uma peça para outra, os passos ecoavam em toda a casa, como se um longo abandono lhe tivesse aguçado a ressonância.
Nesse singular ninho de amor, Alicia passou todo o outono. Lançara um véu sobre os antigos sonhos e vivia como adormecida na casa hostil, sem querer pensar em nada até a hora em que chegasse o marido.
Não surpreendia que emagrecesse. Teve um ligeiro ataque de influenza que acabou se arrastando, insidiosamente, por dias e dias. Não melhorava nunca. Num fim de tarde pôde ir ao jardim, apoiada no braço do marido. Olhava para um lado e outro, indiferente. Jordán, com ternura, passou-lhe a mão na cabeça, e Alicia pôs-se a chorar, pendurada em seu pescoço. Chorou longamente todo o seu espanto calado, redobrando o pranto à mínima carícia. Depois os soluços foram diminuindo e ela continuou abraçada nele, sem mover-se e sem nada dizer.
Foi esse o último dia em que Alicia se levantou.
No dia seguinte amanheceu prostrada. O médico de Jordán veio vê-la e recomendou repouso absoluto.
– Não sei o que ela tem – disse a Jordán em voz baixa, já na porta da rua. – É uma fraqueza que não entendo. Sem vômitos, sem nada... Se amanhã despertar como hoje, manda me chamar.
No outro dia Alicia estava pior. Veio o médico e constatou uma anemia em progresso acelerado, completamente inexplicável.
Alicia não teve mais desmaios, mas era visível que caminhava para o fim. Durante o dia todo o quarto permanecia com a luz acesa e em silêncio. Corriam as horas sem que se ouvisse o menor ruído. Ela dormitava.
Jordán passava o dia na sala, também com todas as luzes acesas. Andava sem cessar de um lado para outro, com incansável obstinação, o carpete abafando-lhe os passos. De vez em quando entrava no quarto e continuava em seu mudo vaivém ao longo da cama, detendo-se um instante em cada extremo a olhar para a mulher.
Em seguida Alicia começou a ter alucinações. A princípio eram confusas, variadas, depois se fixaram no chão do quarto. Com os olhos desmesuradamente abertos, não fazia outra coisa senão fitar o tapete dos dois lados da cabeceira da cama. Uma noite, com o olhar fixo, abriu a boca para gritar, com as narinas e os lábios perlando suor.
– Jordán! Jordán! – clamou, por fim, rígida de espanto e sem deixar de vigiar o tapete.
Jordán acudiu e Alicia, ao vê-lo, deu um grito.
– Sou eu, Alicia, sou eu!
Ela olhou como perdida, logo para o tapete, tornou a olhar para o marido e, depois de um longo momento de atônita confrontação, acalmou-se. Sorriu e, tomando entre as suas a mão de Jordán, acariciou-a por uma longa meia hora, sempre tremendo.
Entre suas alucinações mais pertinazes, houve uma que era a de um antropóide no tapete, erguendo-se na ponta dos dedos e com o olhar cravado nela.
Os médicos voltaram a examiná-la, sempre em vão. Era uma vida que se acabava, dia a dia se dessangrando, hora a hora, sem que soubessem como e por que aquilo acontecia. Na última consulta, Alicia jazia em estupor enquanto lhe verificavam o pulso, um passando ao outro aquele braço inerte. Demoradamente a observaram em silêncio e depois passaram à sala.
– É um caso gravíssimo – e o médico de Jordán balançou a cabeça, desalentado. – Pouco ou nada se pode fazer.
– Era só o que faltava – desabafou Jordán, dedos tamborilando na mesa com violência.
Alicia se esvaía em subdelírios de anemia. Nas primeiras horas da tarde seu mal se atenuava, agravando-se com a chegada da noite. A doença parecia não avançar durante o dia, mas no dia seguinte ela amanhecia lívida, quase em síncope. Parecia mesmo que tão-só durante a noite sua vida escorria em novas vagas de sangue. Ao despertar, tinha a sensação de estar esmagada na cama por um milhão de quilos. Desde o terceiro dia essa prostração não mais a abandonara. Mal podia mover a cabeça e não quis que trocassem os lençóis e a fronha. Seus terrores crepusculares avançavam agora sob a forma de monstros que se arrastavam até a cama e subiam laboriosamente pela colcha.
Perdeu logo a consciência. Nos dois dias finais delirou sem cessar à meia voz. As luzes continuavam funebremente acesas no quarto e na sala. No silêncio agônico da casa, ouviam-se apenas o delírio monótono que vinha da cama e os surdos passos de Jordán.
Alicia morreu, por fim. A criada, entrando mais tarde no quarto para arrumar a cama vazia, olhou intrigada para o travesseiro.
– Senhor – chamou, em voz baixa. – No travesseiro há manchas que parecem de sangue.
Jordán aproximou-se rapidamente. De fato, na fronha, em ambos os lados da concavidade deixada pela cabeça de Alicia, viam-se manchas escuras.
– Parecem picadas – murmurou a criada, depois de um instante de atenta observação.
– Traz a lâmpada pra cá.
A criada levantou o travesseiro e logo o deixou cair, pálida, trêmula. Sem saber por quê, Jordán sentiu que seus cabelos se eriçavam.
– O que houve? – perguntou, rouco.
– Pesa muito – gaguejou a criada, sem deixar de tremer.
Jordán o ergueu. Pesava demais. Levaram-no para a mesa da sala e ali Jordán cortou a fronha e o envoltório interno. As penas à superfície voaram, e a criada, com a boca escancarada, deu um grito de pavor, levando as mãos crispadas aos bandós. No fundo, entre as penas, movendo lentamente as patas peludas, havia um animal monstruoso, uma bola vivente e viscosa. Estava tão inchado que quase não se distinguia sua boca.
Noite a noite, desde que Alicia ficara acamada, aplicara aquela boca – aquela tromba, melhor dito – às têmporas dela, para sugar-lhe o sangue. A picada era quase imperceptível. A mudança diária da fronha havia impedido, a princípio, seu desenvolvimento, mas desde que a moça não pudera mais mover-se, a sucção fora vertiginosa. Em cinco dias e cinco noites ele esvaziara Alicia.
Esses parasitas das aves, diminutos no meio habitual, chegam a adquirir proporções enormes em certas condições. O sangue humano parece lhes ser especialmente favorável e não é raro que sejam encontrados em travesseiros de penas.


(Horácio Quiroga)

domingo, 12 de junho de 2011

A Dança da Morte

Deixe-me contar-lhe uma história de arrepiar os cabelos
Sobre coisas que vi
Uma noite vagando pelos pantanais
Eu havia tomado só um drinque, e nada mais

Estava vagando, aproveitando a brilhante luz da lua
Olhando as estrelas
Sem perceber uma presença perto de mim
Observando os meus movimentos
Assustado caí de joelhos e desmaiei
Quando algo saltou de trás das árvores sobre mim
Me levando para um lugar profano
E lá que caí em desgraça

E então Eles me invocaram para juntar-me a eles
Na dança dos mortos
Para o círculo de fogo os segui
E para o centro fui levado
Era como se o tempo tivesse parado
Ainda estava entorpecido pelo medo mas eu queria ir
E as chamas do fogo não me feriam
Enquanto andava sobre as brasas

E senti que estava em transe
E meu espírito foi tirado de mim
Se alguém ao menos tivesse a chance
De testemunhar o que aconteceu comigo

E eu dancei e pulei e cantei com eles
Todos tinham a morte em seus olhos
Figuras sem vida todos eram zumbis
Que vieram do inferno
Quando dançava com os mortos
Meu espírito estava livre rindo e uivando para mim
Sob o meu corpo morto-vivo dançava o círculo dos mortos

Até que chegou a hora de nos reunirmos
E meu espírito voltou
Não sabia se estava vivo ou morto
Enquanto os outros juntavam-se em cima de mim

Por sorte uma confusão começou
Que desviou a atenção de mim
E quando eles desviaram o olhar
Foi o momento em que fugi

Corri como nunca, mais rápido que o vento
Mas não olhei para trás
Uma coisa que eu não me atreveria
Olhava apenas para frente

Quando você souber que sua hora se aproxima
Saberá que está preparado para isso
Diga seu último adeus a todos
Beba e reze por isso

Quando você está deitado dormindo, em sua cama
E acorda de seus sonhos para ir dançar com os mortos
Quando você está deitado dormindo, em sua cama
E acorda de seus sonhos para ir dançar com os mortos
Até hoje não sei e acho que nunca saberei
Por que eles me deixaram partir
Mas nunca mais irei dançar
Até que eu dance com os mortos
(Dance of Death - Iron Maiden)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Carolina IV - Antropofagia

Depois de tantas tragédias e desilusões em nossas vidas – que nos levaram a desejar (em todo instante) a morte, e eu ter dito que não mais escreveria –, fatos atormentadores forçam-me a ter que prosseguir com os trágicos e fatídicos relatos do Carolina IV e sua tripulação – ou o que dela restou… -, senão enlouquecerei.
Não mais consegui dormir desde o terrível incidente que ocorreu nesse meio tempo de mudez – e se realmente existe um deus, espero que perdoe-nos por tamanha monstruosidade!
Após o ilusório “encontro” com a ilha, fomos carregados para o norte. Estávamos, todos, desiludidos – como se essa desilusão tivesse se ido… -, apenas aguardando a Morte, que insiste em se demorar… - como desejo que ela já tivesse chego!
Nada fazíamos. Passávamos a maior parte do tempo no convés – mas sem chorar: não mais tínhamos lágrimas e, também, não queríamos o mar, com elas, alimentar –, apenas olhávamos o céu e o longínquo horizonte. Descíamos apenas para (tentar) dormir ou comer. Essa ultima já sem nenhum gosto ou prazer – e o que gerava um terrível paradoxo, visto que comíamos para mantermo-nos vivos.
Nossas provisões, estimadas para, no máximo, três semanas, duraram bem mais do que o previsto: cerca de cinco semanas. E duraram todo esse tempo porque, fora o fato de sermos, agora, só sete, mal comíamos...
Mal comíamos, mas se acabaram. E isso, depois de alguns dias, tornou-se desesperador: não mais tínhamos forças. A visão nos falhava. Definhávamos lentamente. Cinco dias que passamos apenas com água. Parecíamos fadados àquela tenebrosa morte.
E então nos sobreveio o pior dos pesadelos: um de nossos companheiros – ignoro o seu nome, por não mais nos considerar seres humanos –, fraco pela inanição, tropeçou na escadaria, enquanto descia e, por mais que a escada não fosse alta,  feriu-se gravemente, chocando sua cabeça contra a quina de um caixote. Entrou em um profundo sono – uma semimorte, um estado que beirava o desmaio e a morte – do qual não mais acordava. Dois dias se passaram sem ele dar sinais de recobrar os sentidos.
Como já disse anteriormente, não mais somos homens. Somos animais. Cruéis animais. E, como tais, o instinto se sobrepõe à razão: enquanto cuidávamos, todos, de nosso companheiro e o víamos naquele estado, o animal que nos habitava aflorou, despertado pela fome. Em desvairo coletivo, iniciamos um banquete insano: devoramos vorazmente o homem do qual cuidávamos – homem que estava vivo e que abruptamente despertou, aos urros de dor e horror, sendo lentamente consumido pelos próprios companheiros!
Ainda posso ouvir seus gritos! Ecoam em minha cabeça! Não sei por quanto tempo, mais, me manterei são… e por isso escrevo – para tentar manter uma conexão com o real e não enlouquecer…
Não consigo imaginar como serão os próximos dias… Ainda dispomos de um pouco daquela carne… e também não tenho ideia de como esse abominável ato afetou meus companheiros… Mas sinto que o verdadeiro terror ainda está por vir…



Miguel Augusto, criatura do Carolina IV
07 de junho de 1500