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sábado, 5 de novembro de 2011

O Estagiário


Fui demitido. Justa causa.
Como estagiário, aprendi milhões de coisas e fui muito bem sucedido nas minhas funções. Juro que não entendo o porquê de me demitirem…
Eu tinha várias funções que fazia com excelência, entre elas:

1. Tirar xerox. 3.1 segundos por página.
2. Passar café.
3. Comprar cigarro e pão. 1 minuto e 27 segundos. Ida e volta.
4. Fazer jogos na Mega-Sena, Dupla-Sena, Lotofácil, Loteria Esportiva…

Eu era muito bom. Mesmo. Fazia tudo certinho, até que peguei uma certa confiança com o pessoal e resolvi fazer uma brincadeirinha inocente.
É impressionante o nível de stress em um ambiente de trabalho. Quis dar uma amenizada na galera, deixar o povo feliz e fui recompensado com uma bela de uma demissão por justa causa. Puta sacanagem!

Vou contar toda minha rotina desse dia catastrófico.

Era quinta-feira, 27 de março, quando cheguei ao trabalho. Nesse dia, passei na padaria no meio do caminho. Demonstrando muita proatividade, comprei pão e 3 Marlboro. Já queria ter na mão sem nem mesmo me pedirem. Quando abri a agência (sim, me deixam com a chave porque o pessoal só começa a chegar lá pelas 11h), já vi uma montanha de folhas para eu xerocar na minha mesa. Xeroquei tudo, fiz café e deixei tudo nos trinques (minha mãe que usa essa gíria).
Como tinha saído um pouco mais cedo no outro dia, deixaram um recado na minha mesa: “pegar o resultado da mega-sena na lotérica”.
Como tinha adiantado tudo, fui buscar o resultado. No meio do caminho, tive a ideia mais genial da minha vida e, consequentemente, a mais estúpida.
Peguei o resultado do jogo: 01/12/14/16/37/45. E o que fiz? Malandro que sou, peguei uns trocados e fiz uma aposta igual a essa. Joguei nos mesmos números, porque, na minha cabeça claro, minha brilhante ideia renderia boas risadas. Levei os 2 papeizinhos (o resultado do sorteio e minha aposta) para a agência novamente.

Ainda ninguém tinha dado as caras. Como sabia onde o pessoal guardava os papeis das apostas, coloquei o jogo que fiz no meio do bolinho e deixei o papel do resultado à parte.
O pessoal foi chegando e quase ninguém deu bola pros jogos. Da minha mesa, eu ficava observando tudo, até que um cara, o Daniel, começou a conferir.
Como eu realmente queria deixar o cara feliz, coloquei a aposta que fiz naquele dia por último do bolinho, que deveria ter umas 40 apostas.
Coitado, a cada volante que ele passava, eu notava a cara de desolação dele. Foi quando ele chegou ao último papel.
Já quase dormindo em cima do papel,vi ele riscando 1, 2, 3, 4, 5, 6 números. Ele deu um pulo e conferiu de novo.
Esfregou os olhos e conferiu de novo, hahahaha. Tava ridículo, mas eu tava me divertindo.
Deu um toque no cara do lado, o Rogério, pra conferir também.
Ele olhou, conferiu e gritou:
-”PUTA QUE PARRRRRRRRIUUUUUUUUUU, TAMO RICO, PORRA”. Subiu na mesa, abaixou as calças e começou a fazer girocóptero com o pau.
Óbvio que isso gerou um burburinho em toda a agência e todo mundo veio ver o que estava acontecendo.
Uns 20 caras faziam esse esquema de apostar conjuntamente. 8 deles, logo que souberam, não hesitaram: correram para o chefe e mandaram ele tomar bem no olho do cu e enfiar todas as planilhas do Excel na buceta da arrombada da mulher dele.
No meu canto, eu ria que nem um filho da puta. Todos parabenizando os ganhadores (leia-se: falsidade reinando, quero um pouco do seu dinheiro), com uns correndo pelados pela agência e outros sendo levados pela ambulância para o hospital devido às fortes dores no coração que sentiram com a notícia.
Como eu não conseguia parar de rir, uma vaquinha veio perguntar do que eu ria tanto.
Eu disse:
-”puta merda, esse jogo que ele conferiu eu fiz hoje de manhã.
A vaca me fuzilou com os olhos e gritou que nem uma putalouca:
-”PAREEEEEEEEEEM TUDO, ESSE JOGO FOI UMA MENTIRA. UMA BRINCADEIRA DE MAU GOSTO DO ESTAGIÁÁÁÁÁÁÁRIO”
Todos realmente pararam olhando pra ela. Alguns com cara de “quê?” e outros com cara de “ela tá brincando”.
O cara que tava no bilhete na mão, cujo nome desconheço, olhou o papel e viu que a data do jogo era de 27/03.
O silêncio tava absurdo e só eu continuava rindo. Ele só disse bem baixo:
- É…é de hoje.
Nesse momento, parei de rir, porque as expressões de felicidade mudaram para expressões de ‘vou te matar’.
Corri… corri tanto que nem quando eu estive com a maior caganeira do mundo eu consegui chegar tão rápido ao banheiro.
Me tranquei por lá ao som de “estagiário filho da puta”, “vou te matar” e “vou comer teu cu aqui mesmo”. Essa última foi do peladão !
Eu realmente tinha conseguido o feito de deixar aquelas pessoas com corações vazios, cheios de nada, se sentirem feliz uma vez na vida.

Deveriam me dar uma medalha por eu conseguir aquele feito inédito.
Mas não… só tentaram me linchar e colocaram um carimbo gigante na minha carteira de trabalho de demissão por justa causa. Belos companheiros!
Pelo menos levei mais 8 neguinho comigo ! Quem manda serem mal educados com o chefe. Eu não tive culpa alguma na demissão deles.
Pena que agora eles me juraram de morte…agora tô rindo de nervoso.
Falei aqui em casa que fui demitido por corte de verba (consegui justificar dizendo que mandaram mais 8 embora) e que as ligações que tenho recebido são meus amigos da faculdade passando trote.

É, amigos, descobri com isso que não se pode brincar em serviço mesmo…


(infelizmente não sei quem escreveu essa...)

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Uma Crônica Crônica

Certa vez, caminhando pela cidade, sob um sol dos diabos, deparei-me com uma cena, no mínimo, constrangedora: um pedreiro gritava para o seu servente, que misturava a massa, em uma construção:
- Ô, fia  da puta, anda logo aí, carai! Fica encebano, aí, e atrasano a obra toda, cacete! - E o servente resmungava alguma coisa inaudível, conforme recebia a bronca de seu superior.
Cheguei aonde o resmungão se encontrava. E reconheci-o: era um antigo amigo, que há muito não via, com o qual estudei no ensino médio.
Por ele estar trabalhando e, também, por tê-lo visto receber aquela bronca, queria passar despercebidamente, para que ele não se sentisse constrangido. Mas, não se importando nem um pouco com a situação vexatória à qual foi exposto, e nem com a possibilidade de uma outra, ao me ver, foi logo falando:
- Porra, Luís! Nem reconhece mais os amigos?
- Eita, Lucas! Você por aqui? - e fui logo mentindo -  Nem o tinha visto! Há quanto tempo, rapaz?! Tudo certo com você?
- Pois é, Luís... Tô bem, sim... e na labuta! - referindo-se, ironicamente, ao trabalho, enquanto ria.
Parou de mexer a massa, se apoiou na enxada - E você, como tá, velho?
- Bem, também... - e, meio "assim" de estar falando com ele em horário de serviço - Velho, deixa eu ir, que devo estar te atrapalhando no serviço. Depois a gente conversa...
- Que nada, Luís. De boa... - disse ele, sossegadamente - Pode ficar tranquilo que o trabalho, aqui, é "sussa"... - e, dando continuação ao papo - Tá sumido, cara! Que que tem feito?
Constrangido por continuar a conversa e atrapalhar o trabalho dele, mas sem opções de fuga, dei uma resposta bem resumida, para que a conversa nao se prolongasse: - Então... Me mudei; estou cursando a faculdade, aqui; e estou trabalhando...
- Hummmm... Os caras me disseram que você tinha mudado... - e, sem se importar com a situação em que estava e se contrapondo à minha vontade de um diálogo breve, perguntou - E tá morando onde?
"Caralho, fodeu!", pensava eu "Quer ver o cara ser demitido na minha frente e por minha culpa? Ou então eu tomar um fumo do patrão dele, por estar aqui, conversando com ele...".
Mal respondi e ele já mandou outra: - E tá fazendo faculdade do que?
- Letras...
- O QUÊ? LETRAS? VAI VIRAR PROFESSOR, ENTÃO?! HUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAUHAUAHUAHAU... - e desandou a gargalhar escandalosamente, deixando-me extremamente constrangido. Dei um leve riso, curto e amarelo, de tão sem graça que estava e ele continuou com a pilhéria - MEU DEUS, LUÍS! VAI PAGAR TODOS OS SEUS PECADOS COMO ALUNO, AGORA! SE FODEU DE JEITO...
A terra parou. Antes de começar o curso, eu nunca havia parado para analisar essas coisas: quantos e quantos professores eu não infernizei, gritando palavrões, tirando sarro de suas caras, fazendo guerras de papéis, giz e apagadores e tantas outras coisas mais, que fiz, até quase ser expulso? (Ainda bem que minhas notas eram boas...) Mas aquelas palavras me fizeram pensar, enquanto meu amigo ainda se escarnecia de mim, "meu amigo... dessa vez você REALMENTE se fodeu..."
Nem me lembro como me desvencilhei da conversa - será que o deixei rindo sozinho? Talvez ele ainda esteja rindo de mim, lá, sem perceber que fui embora...
E, no fim disso tudo, só me pergunto uma coisa: desde quando ser professor se tornou um Karma tão ridicularizado, assim?

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Jeitiminero

Sapassado, era sessetembro, taveu na cuzinha tomando uma pincumel e cuzinhanum kidicarne cum mastumate pra fazê umacarronada cum galinhassada. Quascaí de susto, quando ouvi um barui de dendoforno, pareceno um tidiguerra.
A receita mandopô midipipoca dentro da galinha prassá. O forno isquentô, u mistorô e o fiofó da galinha ispludiu!!
Nossinhora! Fiquei branco quinein um lidileite. Foi um trem doidimais!!
Quascaí dendapia! Fiquei sensabê doncovim, proncovô, oncotô.
Óiprocevê quelucura!!!
Grazadeus ninguém simaxucô!

Humbração procêis!!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

ABCDEtc...

 
A - Primeira letra do alfabeto. A segunda é "L" e a terceira é "F".

AH - Interjeição. Usada para indicar espanto, admiração, medo. Curiosamente,
também são as iniciais de Alfred Hitchcock.

AHN? O quê? Hein? Sério? Repete que eu sou halterofilista.

AI - Interjeição. Denota dor, apreensão ou êxtase, como em "Ai que bom, ai
que bom". Arcaico: Ato Institucional.

AI, AI - Expressão sarcástica, de troça. O mesmo que "Como nós estamos
sensíveis hoje, hein, Juvenal?"

AI, AI, AI - Expressão de mau pressentimento, de que em boa coisa isto não
pode dar, de olhem lá o que vocês vão fazer, gente.

AI, AI, AI, AI, AI - O mesmo que "Ai, ai, ai", mas com mais dados sobre a
gravidade da situação. Geralmente precede uma reprimenda ou uma fuga.

B - Primeira letra de Bach, Beethoven, Brahms, Bela Bartok, Brecht, Becket,
Borges e Bergman, mas também de Bigorrilho, o que destrói qualquer tese.

BB - Banco do Brasil, Brigitte Bardot, coisas do tipo.

BELELÉU - Lugar de localização indefinida. Em alguns mapas fica além das
Cucuias, em outros faz fronteira com Cafundó do Judas e Raio Que os Parta do
Norte. Beleléu tem algumas características estranhas. Nenhum dos seus matos
tem cachorro, todas as suas vacas estão no brejo - e todos os seus
economistas são brasileiros.

C - Uma das nossas letras mais populares. Sem ela não haveria carnaval,
caipirinha, cafuné e crédito e a coisa seria bem mais difícil.

CÁ - Advérbio. Quer dizer "aqui no Brasil". Também é o nome, em português,
da letra K, de kafkiano, o que já deveria ter-nos alertado.

CÊ - Diminutivo de "você", como em "cê soube?" ou "cês me pagam". Também se
usa "cezinho", mas só em casos muito particulares, e com a luz apagada.

CI - Ser mitológico. Na cultura indígena do Amazonas, a mãe de tudo, a que
está por trás de todas as coisas, a responsável por tudo que acontece (ver
CIA).

CO - "O outro." Como em co-piloto (o outro piloto), coadjuvante (não o
adjuvante principal, o outro) e coabitação (morar com a "outra").

CÓ - O singular de "cós".

CÓS - Os "cós das calças", que até hoje ninguém descobriu o que são.

CUCUIAS - Arquipélago, provavelmente no Caribe, mas no lado da sombra... A
única coisa certa que se sabe sobre as Ilhas Cucuias é que ficam longe das
Ilhas Cayman. Celebrizadas no poema ufanista anônimo Povo de Turistas ("Como
viajam os brasileiros/ donos de um elã incomum./ A maioria vai pras Cucuias/
e o resto vai pra Cancun").

D - 500 em latim. Vale meio M, cinco Cs e dez Ls.

DDD - Discagem Direta a Distância, ou Dedo Dolorido De tanto tentar.

DE - Prefixo que significa o contrário, o avesso. Como em "decúbito", ou com
o cúbito para cima.

E - Conjunção. Importantíssima. Sem o E, muitas frases ficariam
ininteligíveis, dificultando ainda mais a comunicação entre as pessoas. Em
compensação, não existiriam as duplas caipiras.

E? - E daí? Continue! Qual é a conclusão? Qual é o sentido dessa história
toda? Onde você quer chegar, pombas? Vamos, desembuche!

É - Afirmativa, confirmação, concordância ou resignação. Também usado na
forma reflexiva ("Pois é"), na forma interrogativa ("É?"), na forma
reflexiva interrogativa ("Né?") e na forma interrogativa retórico-reflexiva
("Ah, é?").

É... - O mesmo que "Pois é", mas com uma carga filosófica maior. Tudo que
tem reticências é filosófico. Ou irônico, que é o filosófico que dá briga.

EH, EH, EH, EH - Risinho safado. Também dá briga.

EPA! Exclamativo. Usado em situações-limite, como beliscões extemporâneos na
bunda, principalmente se ela for a sua. Outras formas: "Opa" (ver OPA),
"Peraí"' (ver "PÔ), "Péralá!"' (ver AI, AI, AI).

F - Ou "efe". Uma das oito letras com duas sílabas do alfabeto. "Doblevê"
tem três, "ipsilone" tem quatro e "dobliú", depende. Se você diz o "bliú"
ligeiro, é uma sílaba só, se for baiano são duas.

PH - Efe no tempo em que era "ephe".

G - De "gongórico", nome dado a tudo que soa como um gongo.

GA-GA-GA-GA-GA... Gago.

H - A letra "agá". Também pode ser os edifícios do Congresso, em Brasília.
Nesse caso, saia de perto.

HONTEM - Ontem, ontem.

I - Monograma do Marco Maciel.

IH - Expressão de mau pressentimento. Como em "Ih, outro discurso do
Simon..."

IIIIIII - Expressão de mau pressentimento quando o pressentido já começou a
acontecer e não há nada a fazer senão se preparar para o pior. Ou emigrar,
claro. Substitui as frases "Eu sabia...", "Esse filme eu já vi..." "Lá vamos
nós outra vez..." e "Ai, ai, ai" (ver AI, AI, AI, AI, AI) IIIIIIIIIIIIIII
(Continua) - Um "liiiih" que não encontra resistência e se prolonga
indefinidamente, acompanhando a curvatura da Terra. No Brasil há casos de
"liiihs" que começaram há 35 anos e ainda não terminaram.

J - Uma das letras mais brasileiras do alfabeto. A primeira letra de jabá,
jabaculê, jeitinho, jogada e joint venture. Está na nossa origem ("Já fui!
Já fui!", as palavras que acompanham nossa concepção) e no nosso fim
(jazigo, já era).

JÁ - Agora.

JÁ, JÁ - Daqui a pouco.

JESUS! - Apelo a um poder mais alto, ignorando-se os trâmites normais e
todas as instâncias intermediárias - santos, secretárias, seguranças - para
ir direto em quem manda, ou pelo menos no seu filho.

JURADO - Membro de um júri. Marcado para morrer. Ou, dependendo de onde for
o julgamento, as duas coisas juntas.

K - Não existe em português, mas ninguém conseguiria dizer "um kantiano
kitsch de kilt num kart" sem ela, a não ser que fosse fanho (ver ANHO).
Embora seja pouco provável que alguém, algum dia, precise usar esta frase.

L - O "ele" minúsculo é igual ao "l" e o maiúsculo também, só que com
sombra.

LOT - Ou Ló. De uma vez por todas, preste atenção. Ló era o do pão e dos
escravos que jogavam caxangá (ver CAXANQUÊ?), Jó era o das provações de Deus
e da mulher que virou estátua de sal. Espera um pouquinho. Jó era o dos
escravos, Ló era o do pão e da estátua. Não! A mulher que se transformou em
estátua e os escravos eram do Jó, Ló era só o do pão. Não! Os escravos eram
da mulher do Jó, o Ló era o das provações e o Jó virou pão. Não! Os escravos
eram da mulher do Ló, que era uma das provações do Jó, que virou estátua de
sal mas do Ló. Não! O Ló virou Jó e... Esquece.

M - Primeira letra de "eme".

N - O "ene", não.

O - A letra símbolo da Kabala. A Cobra da Vida comendo a si mesma por toda a
Eternidade. A letra que é um número, e o número que é um vazio. O Tudo e o
Nada num mesmo signo. Em inglês, "OK". Em português: "Aqui, ó."

Ó - Interjeição. Como em "Ó vida" ou "Ó tempos, ó modos" e, especialmente,
"Ó Minas Gerais".

OBA - Epa, no bom sentido.

OH - Interjeição. Como em "Oh, não!" e, principalmente em filme americano
dublado, "Oh, sim!"

OI - Alô.

OI, OI, OI - "Ai, ai, ai" mais baixinho. (Ver "iiiiiiiih") 
 
PÔ - Abreviatura de "positivamente", como em "Positivamente, assim não dá".

QRST - Único grupo de quatro letras sucessivas no alfabeto que não inclui
uma vogal. E você sabe o que isso significa...

UI - "Epa" de quem está gostando.

V - De Verdade e Vileza, Verme e Virgem, Veneno e Valium, é a única letra do
alfabeto que, de cabeça para baixo, vira uma casinha. É preciso dizer mais?

XYZ - As últimas letras do alfabeto. Pronuncia-se "xyz". O "X" e o "Z" são,
juntos com o "K", as letras mais duras e antipáticas do alfabeto e existe
uma suspeita de que sejam nazistas. Não admira que o "Y", entre as duas,
esteja com os braços para cima, apavorado.
 
 
(Luiz Fernando Veríssimo) 

segunda-feira, 13 de junho de 2011

O Arquivo

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.

Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.

Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.

O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.

Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.

Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.

Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.

Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.

joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.

Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.

Respirou descompassado.

— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.

joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.

— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.

O coração parava.

— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.

A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.

— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?

Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.

Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.

Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.

Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.

Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.

O corpo era um monte de rugas sorridentes.

Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:

— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.

O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:

— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.

O chefe não compreendeu:

— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?

A emoção impediu qualquer resposta.

joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.

João transformou-se num arquivo de metal.


(Victor Giudice)

domingo, 5 de junho de 2011

Vincent

(poema [legendado] narrado pelo próprio Vincent Price)


Vincent Malloy is seven years old
He’s always polite and does what he’s told
For a boy his age, he’s considerate and nice
But he wants to be just like Vincent Price

He doesn’t mind living with his sister, dog and cats
Though he’d rather share a home with spiders and bats
There he could reflect on the horrors he’s invented
And wander dark hallways, alone and tormented

Vincent is nice when his aunt comes to see him
But imagines dipping her in wax for his wax museum

He likes to experiment on his dog Abercrombie
In the hopes of creating a horrible zombie
So he and his horrible zombie dog
Could go searching for victims in the London fog

His thoughts, though, aren’t only of ghoulish crimes
He likes to paint and read to pass some of the times
While other kids read books like Go, Jane, Go!
Vincent’s favourite author is Edgar Allen Poe

One night, while reading a gruesome tale
He read a passage that made him turn pale

Such horrible news he could not survive
For his beautiful wife had been buried alive!
He dug out her grave to make sure she was dead
Unaware that her grave was his mother’s flower bed

His mother sent Vincent off to his room
He knew he’d been banished to the tower of doom
Where he was sentenced to spend the rest of his life
Alone with the portrait of his beautiful wife

While alone and insane encased in his tomb
Vincent’s mother burst suddenly into the room
She said: “If you want to, you can go out and play
It’s sunny outside, and a beautiful day”

Vincent tried to talk, but he just couldn’t speak
The years of isolation had made him quite weak
So he took out some paper and scrawled with a pen:
“I am possessed by this house, and can never leave it again”
His mother said: “You’re not possessed, and you’re not almost dead
These games that you play are all in your head
You’re not Vincent Price, you’re Vincent Malloy
You’re not tormented or insane, you’re just a young boy
You’re seven years old and you are my son
I want you to get outside and have some real fun.

”Her anger now spent, she walked out through the hall
And while Vincent backed slowly against the wall
The room started to swell, to shiver and creak
His horrid insanity had reached its peak

He saw Abercrombie, his zombie slave
And heard his wife call from beyond the grave
She spoke from her coffin and made ghoulish demands
While, through cracking walls, reached skeleton hands

Every horror in his life that had crept through his dreams
Swept his mad laughter to terrified screams!
To escape the madness, he reached for the door
But fell limp and lifeless down on the floor

His voice was soft and very slow
As he quoted The Raven from Edgar Allen Poe:

“and my soul from out that shadow
that lies floating on the floor
shall be lifted?
Nevermore…"


(Tim Burton)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Gato Sou Eu


- Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu!


(Fernando Sabino)