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domingo, 22 de maio de 2011

Insurreição


A mesa está posta. Há pães, assados, frutas e vinho. Um banquete digno de reis. 
Não consigo comer. Embora estivesse acostumado a refeições mais simples e piores, não tenho fome.
Volto ao quarto. O arcebispo – um homem velho, calvo, de cabelos e barbas grisalhas, gordo e de aparência serena ao mesmo tempo que severa – parecia recobrar os sentidos. Amarro os seus braços nos da poltrona.
Não estou nem um pouco arrependido, do que já fiz e do que ainda estou por fazer. Sinto-me leve… E o que é melhor: não mais ouço aqueles terríveis gritos…
Monstro, eu? Talvez. Mas tenho que fazê-lo. Além do quê, meus atos não serão diferentes dos da Vossa Excelência Reverendíssima…
E, pensando bem… o que estou por fazer é algo relativamente bom. O homem diante de meus olhos já matou centenas, acusando a todos de bruxaria. Pessoas que eu conhecia. E que eu sabia não fazerem nada de errado.
As consequências dos atos monstruosos do arcebispo me trouxeram até aqui – aquele sorriso… e os gritos…!
Ele desperta. Encara-me profundamente nos olhos. Mas não grita. Seu semblante é indiferente.
Revendo os fatos até chegar aqui…

Tudo começou naquela tarde aterrorizante. A bela e inocente jovem sendo queimada viva – ah, os gritos…! E sua linda imagem sendo decomposta…! Um anjo em chamas…! – E aquele demônio sorrindo!
Não pude mais dormir, desde aquele dia. Sempre que fechava os olhos, via aquele sorriso diabólico - sútil e perverso -, e a imagem da jovem se desfigurando…
Mas o pior de tudo eram os gritos. Ressoavam dia e noite em minha cabeça, sem parar. Uma semana toda com suas reverberações. Não sei como resisti sem enlouquecer… - ou enlouqueci?
De qualquer forma, os gritos intensificavam-se quando eu via o arcebispo ou quando passava em frente à catedral. Queriam dizer-me algo. E na manhã de hoje me resolvi por parar e ouvir…
Os gritos eram disformes. E mesmo sem dizer coisa alguma, diziam-me algo. Criavam imagens em minha cabeça. Imagens vivas. Imagens de um sorriso em chamas. Imagens de morte. E se repetiam constantemente, sempre aumentando o seu volume e intensidade. Sem parar. Até me convencerem. E então se abrandaram. Porém não cessando.
A partir daí, precisava arquitetar os meus planos. Como e onde pegaria o arcebispo sozinho? Nada me ocorria. Em todas as ideias que me ocorria, estava sempre rodeado de bispos e fiéis.
E então a “voz” dos gritos fez-se ouvir, novamente. Uma nova imagem se criou: uma grande festa na praça da catedral onde só se encontravam os nobres e as pessoas de posse; os bispos com eles festejando; uma janela esquecida aberta; o arcebispo sozinho em seu quarto se arrumando demoradamente; o relógio da catedral indicava às vinte horas – a hora em que eu deveria agir. E novamente os gritos se abrandaram.
O dia se arrastou pesada e lentamente até a chegada do entardecer. Não saí de casa. E também não consegui comer nada. Embora nervoso com o que teria que fazer, estava disposto a cumprir minha designação.
Um turbilhão rodava em minha mente. Não pensava em mais nada, a não ser no que teria que fazer. E como o faria?
O tempo passou até os grandes sinos da catedral soarem dezenove horas. Era a hora de começar a agir.
Minhas pernas estavam moles, o passo vacilante. Mesmo assim tomei meu rumo, que parecia não mais ter fim.
Aqui chegando, a janela apontada pela “voz” estava aberta. Entrei por ela. Podia-se ouvir ao longe – do lado oposto ao que eu estava – um som musical. Era a festa dos poderosos. Esgueirei-me até os aposentos do arcebispo, que se encontrava em uma das torres da catedral. Ele se arrumava de costas para a porta, que se encontrava aberta – alvo fácil. Acertei-o com um pequeno castiçal que se encontrava próximo. Desmaiou.
Amarrei-o em uma poltrona. Não sabia o que fazer.
Fechei e tranquei a porta. Fui até a sala de jantar de seus aposentos…

Por fim, após longo tempo me olhando friamente nos olhos, diz calmamente:
– O que o traz aqui, meu filho?
Não sei o que dizer. Desvio o olhar e continuo calado.
Seu quarto é enorme e está em perfeito estado de conservação, ostentando riquezas. Mesmo assim, está em reforma. Há uma banca de carpintaria montada próxima à janela. Pego um martelo.
– O que pretende fazer com isso, meu jovem?
Não o olho
– Quer joias, terras ou riquezas? – e me lançando um olhar desafiador – ou veio para me matar? – e pôs-se a gargalhar.
Olhei-o de relance. A situação, em vez de assustá-lo, o divertia.
– Não tem coragem nem de, ao menos, olhar em meus olhos ou dirigir-me a palavra. O que dirá, então, me matar?  – e continuou gargalhando.
Não sei o que fazer. Mas não irei voltar atrás.
Pego uma vela já acesa e me ponho a acender algumas outras. O quarto fica bem iluminado. Volto a encará-lo. Posso ver claramente as suas feições, agora. Traz aquele sorriso sutil e menosprezante estampado na cara.
– Vossa Excelência Reverendíssima mandou queimar uma jovem inocente… – digo após um tempo encarando-o – Acusou-a, falsamente, de bruxaria.
– Refere-se à bela jovem da semana passada, acredito eu – disse ele, mal esperando eu terminar de falar e de forma pensativa. E, com um sorriso amarelo estampado na cara – uma jovem firme, de coragem e íntegra. Não aceitou se deitar comigo mesmo depois de eu ameaçá-la, dizendo que a acusaria de bruxaria e que a condenaria à morte o mais rápido que pudesse – e, escarnecendo-me – E o que poderia um homem tão miserável como você fazer? –erguendo a voz – Homens mais poderosos e corajosos já estiveram em seu lugar. E não me fizeram absolutamente nada. Nada! Tiveram medo. Medo de deus. Medo de mim!
Havia uma quantidade enorme de prepotência em suas palavras. Julgava-se deus. Ou superior.
Aproximei-me dele.
– Desamarre-me agora, cria do demônio! Ou irá à fogueira ainda hoje, maldito! – esbravejava.
– Aí se encontrará  com sua prostitutazinha de olhos verdes!
Suas ultimas palavras irritaram-me. O coração em disparada. O ódio à flor da pele.
Ergo o martelo que segurava e desço-o com força e raiva em seu dedo anelar da mão esquerda, que estava espalmada no braço da poltrona, no qual usava o anel de selagem. Com a força do impacto, o aro do anel rasga sua pele e carne, esmigalhando os ossos. O dedo fica pendurado por uma pequena tira de couro e carne. O urro que dá é assustador. Mas ninguém o ouve. A festa e a distância de seu quarto se encarregam desse detalhe.
Sua cara, agora, é de terror. E isso me entusiasma, levando-me ao êxtase.
– O que a Vossa Excelência Reverendíssima disse sobre eu não ter coragem? – digo ironicamente.
– Por favor! Perdoe-me, filho! Posso fazê-lo rico! Terás tudo o que quiser! Não irei acusá-lo de nada! Será visto como herói, se quiseres! Mas poupe-me, por favor! Eu lhe imploro, meu filho! – clamava ele, repetitiva e desesperadamente.
Seus clamores irritam-me ainda mais. Com uma martelada, esmago-lhe a ponta do dedo indicador direito. Rio enquanto ele grita e chora, imobilizado, sem nada poder fazer.
Sobre uma escrivaninha, ao lado de sua gigantesca cama, há um abridor de envelopes. Apanho-o e cravo-lhe no antebraço direito. Puxo-o até o pulso, abrindo-lhe uma enorme fenda. Seus gritos são desumanos.
Com uma de suas camisas, estanco-lhe o sangue, amarrando-a firmemente próxima ao seu ombro. Não quero que ele morra logo e interrompa a minha diversão.
Utilizando-me, novamente do martelo, arrebento-lhe a boca, juntamente com os dentes em um único golpe.
Cansei-me de seus gritos.
Vou até a sala de jantar e apanho duas facas que estavam sobre a mesa. Agonizando de dor, com a boca escancarada, enfio-lhe uma delas em sua língua, que se contorce, e, com a outra, corto-a vagarosamente.
Seus gritos agora são mudos. Contorce-se na cadeira.
Apanho um prego da bancada. Cravo-lhe no olho direito e puxo-o transversalmente, o arrancando.
Seu estado era deplorável. Não mais se assemelhava com a figura com que me deparara anteriormente. E isso me entusiasmava.
Excitava-me continuar com meus atos de tortura… E continuei. Era como pintar um quadro… Pensava em cada detalhe… e não conseguia parar…
E então, quando já estava quase sem forças e o corpo, em minha frente, disforme, resolvi por terminar de vez com seu sofrimento: rasguei-lhe o pescoço e o atirei do alto da torre.
Depois de ter feito todas essas coisas, sinto-me leve e livre. E com fome.
Os gritos que antes me atormentavam, cessaram. Por enquanto…

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Brisky

Porco assado. Era esse o cheiro que me chegava às narinas… Mas espero que não estejas com fome, pois porco não era – embora grunhisse feito um -: era uma mulher - e uma belíssima mulher, diga-se de passagem.
Seus belos e expressivos olhos verdes – tão verdes quanto o mar – mostravam dor e horror extremos: arregalaram-se de forma aterrorizante, expondo grande parte dos globos, abrindo bem mais os olhos do que qualquer ser humano comum poderia, devido às pálpebras que se desmanchavam. Isso antes de eles derreterem, vazando de suas órbitas.
Os sedosos, longos e ondulantes cabelos castanhos – que antes esvoaçavam ao vento – eram consumidos pelas chamas, encolhendo e encrespando-se involuntariamente, chegando à cabeça e liberando um cheiro terrível.
A boca de pétalas de rosa, juntamente com a branca e macia pele de pêssego, enegreciam e enrugavam-se, tomando um aspecto de velho e podre. E do velho surgiu o vermelho. Vermelho dos músculos, que foram rapidamente chamuscados.
E todos os líquidos que a constituíam foram tragados, fervilhando e evaporando – queimando-a de dentro para fora -, murchando seu antes belo e perfeito corpo.
Queimada viva, acusada de bruxaria - esse era o motivo de seu brutal assassinato –, seu corpo estalava enquanto o fogo a devorava.
E os gritos… Ah, os gritos! Ainda os ouço! Inundam a minha mente e a estremecem. Ainda mais durante as noites… - não mais poderei dormir… e, se fecho os olhos por um instante que seja, a vejo se decompondo, consumida pelas chamas… uma cena demoníacamente insuportável…
Ao redor, as pessoas olhavam. Simplesmente olhavam, sem nada fazer. Alguns, ainda, incitavam o ato e gargalhavam. Podia-se ver, claramente, o deleite em seus olhos. Eram como demônios que se alimentavam do sofrimento e dor dos outros.
E o próprio diabo, ali disfarçado, se personificava: vestes brancas, terços e cruzes de ouro incrustrados de pedras preciosas – contradizendo bruscamente com a pobreza e miséria do lugar – e aquele olhar sereno que somente os psicopatas conseguem manter frente à tamanha barbárie. Além disso, podia-se ver estampado em seu rosto um sutil sorriso. Tão leve que passaria despercebido. E vieram dele as acusações contra a bela jovem.
Jovem da qual pouco sabia. A vi umas poucas vezes no vilarejo. Mas ouvi que era da casa de Brisky, família importante e influente no local.
Ouvi, também, que ensinava populares a ler e que alguns religiosos estavam irritados com isso. Conhecimento é libertação, coisa que a igreja não quer para os seus seguidores. Seus olhos seriam abertos e ela – a igreja – perderia o controle.
Mas até onde os boatos seriam verdadeiros? Posso confiar nos meus critérios de julgamento?
Só sei que agora a vejo queimar após ter visto todo o seu sofrimento. E também vejo o sorriso do arcebispo e o entusiasmo de quem assistia.
Com o vento vem, novamente, o cheiro de porco assado. E dessa vez me dá fome...

domingo, 8 de maio de 2011

O Homem da Batina Negra


É incrível como que, num piscar de olhos, a vida de um homem pode dar uma guinada tão grande e tão brusca, ao ponto de, em questão de milésimos de segundos, você estar contra tudo aquilo que disse e fez ao longo de toda sua vida.
E o pior é quando o que faz tem consequências terríveis.
Essa é a sinopse de minha vida. Vida que, agora, nos momentos finais, se passa vividamente diante de meus olhos. E, por essa vivacidade com que essas imagens me vêm à mente – tão rápido! – posso ver melhor o que me levou a tamanha derrocada. Por isso irei expor a você - quem quer que seja que se disponha a ler o breve e terrível relato de minha vida -, para que possa compreender que os horrores que cometi tem o toque frígido de algo que foge da capacidade cognitiva humana, o que só pude ver no tempo em que estive aqui, isolado – ou será que já estou louco? Sinceramente, não sei mais…
Sem mais demoras, irei começar com minha tragédia.
Meu nome já não mais importa. E também quero poupar meus familiares de mais vergonhas. Já causei a eles sofrimentos demais. O que posso dizer é que era padre, embora fosse meu primeiro ano como tal.
Formei-me como primeiro da turma de Teologia do ano passado. E com isso, consegui assumir a paróquia da pequena Liñares, onde orientava a população e dava sermões. Apesar disso, não cria em Deus, na bíblia, em anjos, santos, demônios, ou em qualquer ser que julgava eu terem sido criados pelos homens, para suprir sua necessidade de ter algo em que crer, para poder explicar seus medos e anseios.
Embora minha total descrença, levava minhas tarefas com zelo e carinho. E creio que fazia um bom trabalho. A vida era simples e tranquila.
Não posso dizer, ao certo, quando as coisas começaram a mudar, mas… - não, espere! Será? Sim, acho que sim! É, acho que foi ali, sim!
Vou tentar expor o que imagino ser o início de tudo. Espero que me entenda. E também que acredite no que digo. A menos que me julgues louco – estarei?
Como dizia, o que acredito ser o começo do meu fim começou como um dia normal. Um lindo dia de domingo. Ensolarado e com poucas nuvens.
Acordei cedo, como de costume, com o cantar dos galos. Tomei meu café matinal. E após cuidar de alguns afazeres e preparar a missa do dia, fui cumprir minhas rezas matinais. Rezava de forma mecanizada, por ter que cumprir tais compromissos desde menino. Mas a mente viajava entre as moças da vila – moças das quais costumava tirar mais do que apenas as confissões…
Passaram-se as horas e o horário da missa de domingo chegou. Transcorria normalmente. Meu discurso se mostrava cheio de fervor e confiança, embora fosse decorado e as palavras não me fizessem sentido algum.
Enquanto seguia com meu sermão, um homem estranho entrou na igreja. Não teria o notado. Homens não me chamam a atenção. Mas sua presença causou em mim – só em mim? – algo estranho, um arrepio que me percorreu a espinha. E, ao passo que ele se dirigia vagarosamente à primeira fila, todos os sons diminuíam sincronizadamente com seus passos, sendo que o som desses aumentavam vertiginosamente a cada passada, ao ponto de eu não mais poder ouvir minha própria voz. Tive medo (?) – não sei ao certo o que sentia – sentia? As palavras continuavam a jorrar de minha boca, embora eu nem as percebesse – sequer pensava. A velocidade do mundo parecia ter-se reduzido.
O homem misterioso chegou ao seu destino e se pôs a sentar. Nesse momento encarei-o nos olhos – meu deus, os olhos! Senti minhas pernas estremecerem e a bexiga se apertar. Suei frio. Involuntariamente desviei o olhar. Mas a imagem dos olhos – olhos que só olhei por uma fração de segundos – me ficaram gravadas na mente: eram frios, inexpressivos e com um ar de indiferença carregados de mistério.
No momento em que virava o olhar, ainda em transe, algo estranho me chamou de volta à vida: um dos pregos que segurava o crucifixo que ficava atrás do púlpito se soltou, fazendo com que ele desse uma volta de cento e oitenta graus, fazendo com que ficasse de ponta cabeça. Ouviram-se exclamações de espanto entre a assistência. Mantive-me indiferente. Na realidade, aquela não era a primeira vez que tal fato acontecia, embora fosse a primeira entre a multidão.
Fez-se novamente silêncio e a missa prosseguiu. O crucifixo permaneceu de ponta-cabeça até o fim dela.
Após o término e a saída de todas as pessoas, resolvi por tomar um banho e descansar minha cabeça, que estava pesada. Deitei e acabei por dormir. Dormi um sono irregular e difícil. Não sonhava e nem tinha pesadelos, porém, tinha a impressão de ouvir um sussurro em meus ouvidos, o que me atrapalhava o sono.
Acordei só na segunda-feira. Na realidade, me acordaram. O sol já estava alto. Batiam avidamente nas portas da igreja. Levantei ver quem era e o que queria. Deparei-me com o comissário de polícia. Estava sério. Algo havia acontecido. Mal abri a porta e ele já foi logo dizendo:
- Venha comigo, padre.
- O que houve? – perguntei.
- Te respondo no caminho - e com essas palavras, me pegou firmemente pelo braço, quase que me arrastando.
Nesse momento pensei ter feito algo errado enquanto dormia – algum tipo de sonambulismo? Minha consciência pesava.
Chegando à charrete em que veio o comissário e subindo, repeti minha pergunta: “o que houve?”.
Minha resposta veio com um olhar frio e sem nenhum sentimento:
- O prefeito foi brutalmente assassinado, noite passada – e, de repente, a muralha fria se desmanchou em lagrimas, visto o comissário ser irmão do prefeito. Com a voz embargada, prosseguiu – abriram-lhe o peito e a barriga – e já soluçando – arrancaram-lhe o coração. Suas tripas foram espalhadas por todo o quarto… e eu quem o encontrei nessa situação… - e, com tais palavras, o comissário, um homem de dois metros de altura, forte como um touro, de olhos e cabelos negros, desmaiou. Ao que parece, nenhum ser humano, por mais forte que seja, é capaz de superar tamanho trauma.
Chegamos ao nosso destino, a casa do prefeito. Isso graças ao policial que guiava a charrete. O mesmo que me ajudou a carregar - com a ajuda de mais dois homens -, o comissário até o sofá da casa do prefeito e que me informou que fui chamado para verificar se havia ocorrido um possível ritual satânico e também para preparar e encaminhar o corpo para o funeral.
Entrei no quarto do prefeito. A cena era monstruosa. O corpo ainda estava no local. Meu estomago se revirou todo e, se eu tivesse desjejuado, vomitaria tudo o que havia comido.
Apesar de toda a monstruosidade do crime e da falta do coração da vítima, não havia traços de que houvesse ali acontecido um ritual de magia negra.
Depois de tudo realizado, saí da casa. Resolvi por voltar à pé. Respirar. Precisava muito disso. E minha cabeça estava pesada. Minha consciência estava pesada. Algo estava errado, embora não soubesse o que era.
Enquanto caminhava, pensava na carnificina. Pensava em quem poderia ter feito tamanha barbárie. No mesmo instante me veio à mente a imagem do estranho da igreja. Tinha que comunicar isso às autoridades. A presença do desconhecido e a morte poderiam ter relação. Estava certo de que tinham – e aqueles olhos!
Quando estava chegando à igreja, um vulto surgiu de trás de uma árvore. Era o desconhecido da noite passada.
- Boa tarde, padre – disse ele, de forma serena – ótimo sermão o da noite passada.
- B-boa tarde – respondi, com a voz entrecortada e sem conseguir encará-lo - e que bom que gostou.
Não me respondeu.
- Não me lembro de tê-lo visto pela região, antes – acabei dizendo eu, para quebrar o gelo que se formou.
- Não está uma bela tarde? – perguntou ele, ignorando-me – mas vejo que parece pálido… está doente? Ou algo o aterroriza? – e a segunda pergunta parecia carregada de um tom de sarcasmo.
- Um assassino está à solta – respondi, secamente, sempre sem olhá-lo diretamente – A vítima foi morta essa noite. Provavelmente por alguém de for…
- Ou quem sabe algum inimigo? – cortou-me.
- Não sei se algum inimigo poderia ser tão cruel, assim…
- Não se pode imaginar o tamanho da crueldade dos homens, padre. Mesmo a do mais santo…
Tal exortação me encheu de raiva – não era eu quem estava ali para exortar?
- Mas é provável que esteja certo… – continuou pensativamente – um estranho… um psicopata de fora… - e, para minha surpresa – mas acredito não ter visto nenhum movimento suspeito enquanto jogava e bebia com o comissário, ou enquanto me divertia com as moças da cidade… mas como eu disse, bebia… e um homem que bebe não tem tanta certeza no que vê ou não…
É incrível! O desconhecido tinha álibis! E, ao que parece, reais! Minhas cogitações caíram por terra. Fiquei zonzo, de repente.
Após suas últimas palavras, se pôs em direção ao centro, o que eu não teria percebido se o estranho, após ter passado por mim, não tivesse se virado e dito “sou o novo médico da vila”.
“Novo médico”. Sem nomes. Apenas “médico”. Um homem, aparentemente, jovem, de uns 25 anos, estatura e porte medianos, cabelos negros e longos - e o olhar estonteantemente frio e inexpressivo! Olhar que me assustava – e ainda assusta!
Entrei. Minha cabeça rodava. Resolvi por me deitar e acabei adormecendo. Novamente um sono sem sonhos. Só o que parecia com um sussurro reverberava em minha cabeça – e agora, relembrando os fatos e prestando maior atenção aos detalhes, penso que tais sussurros lembravam gargalhadas. Gargalhadas distantes e abafadas.
Ao acordar, na terça, tomei um grande susto. Já eram as horas finais da tarde. Por que isso? Eu que sempre fui acostumado a acordar cedo… Então me lembrei de que desde domingo não comia nada. No entanto, não estava com fome. O que era estranho, já que estava há dois dias sem nada no estomago e sempre me alimentei rica e fartamente. E pensando se faria algo para comer, ouvi uma forte sequencia de pancadas na porta, o que me tirou da linha de pensamento bruscamente.
Fui atender. Era o policial da noite passada. Disse-me que outro assassinato similar ao do prefeito havia ocorrido. A vítima da vez era a jovem e bela professora de primário da cidade – moça com a qual costumava “ter aulas” em algumas noites furtivas… - e o policial queria que o acompanhasse:
- Vamos, padre! O novo médico da cidade já está lá!
Tais palavras me incomodaram. Fingi indisposição para não ter que me encontrar novamente com o novo cidadão. Disse que visitaria o local assim que estivesse melhor.
Com a saída do policial, sentei-me pesadamente em uma poltrona. Não pensava na situação terrível em que nos encontrávamos, mas sim nos olhos que teimavam em permanecer em minha cabeça. E isso me irritava ao mesmo tempo em que intrigava.
Fechei os olhos. Creio ter cochilado uns 10 minutos.
Despertei subitamente e tomei um susto imenso: o médico que tanto me incomodava estava diante de meus olhos, encarando-me fixamente. Emudeci. Meu coração deve ter parado por um instante – instante que pareceu horas… horas terríveis encarando aqueles olhos… olhos que pareciam ler a minha mente!
Só voltei a mim com os sacolejos do policial – o mesmo que esteve ali havia menos de uma hora. E estava acompanhado do médico.
Explicou que, enquanto voltava, cruzou com o médico, que, preocupado com a situação da pequena Liñares, - os meus carrascos chegaram! Tentarei apressar o meu relato – trazia sugestões para passar à população, a fim de evitar novos ataques e tentar identificar o assassino. A ideia era interessante e útil, não precisando de minha aceitação. Mas o médico se encaminhava a mim para pedir a permissão de poder reunir os cidadãos em nossa igreja, visto o tamanho do prédio, que comportava praticamente todos os habitantes locais.
Aceitei – embora tenha sido mais pela presença do policial do que pela ideia do médico, a qual me causava inveja, por ser simples ao mesmo tempo que brilhante. E ficou acertado de divulgar o encontro na missa do dia seguinte, o que ocorreu de acordo com o planejado, ficando, assim, a reunião marcada para a sexta-feira da mesma semana, ao entardecer.
Mais dois homicídios ocorreram até o dia marcado – um deles no mesmo dia. A população compareceu em peso, ao local. Provavelmente estavam morrendo de medo de serem mortos. Apinhavam, caladamente, o local.
Sentei-me na primeira fila.
Quem falava era o policial. Falou brevemente da situação e – para o meu terror – chamou o médico para falar de forma mais detalhada sobre o assunto.
Enquanto dissertava, parecia não tirar os olhos de mim – e isso me deixava agoniado! Aqueles olhos me causavam terror! Pareciam penetrar no mais profundo de minha mente!
 O medo se apossava totalmente de mim. Suava frio. Meu coração batia descompassadamente. Minha cabeça, rodando, acompanhava apenas as batidas de meu coração, que diminuíam de altura até não ouvir mais nada – nem meu coração, nem a voz do médico e nem os murmúrios da população. Em contrapartida, conforme os sons diminuíam, aumentava o som do sussurro que eu costumava me seguir desde a primeira morte. Só que dessa vez os sussurros estavam diferentes, mais intensos…
E essa intensidade juntamente com aqueles olhos… levaram-me a um êxtase insano – o terror se tornou raiva. O ódio mais puro tomou conta de mim.
Levantei-me subitamente, sem saber ao certo o que fazia. A raiva me consumia. Dirigi-me para o fundo da igreja e tranquei as portas, sem que ninguém percebesse.
Fui até meus aposentos, de onde peguei uma vela acesa, com a qual ateei fogo nas cortinas de uma das extremidades do salão da igreja. Antes que qualquer pessoa percebesse o inicio do incêndio, me retirei pela porta que dava acesso aos meus aposentos e a tranquei.
Em pouco tempo o fogo se espalhou pelo salão, já que este era cheio de materiais inflamáveis, como velas, madeira, papeis…, e consegui ouvir os gritos de desespero das pessoas lá dentro, sem ter como sair, já que as portas estavam trancadas e os vitrais eram muito altos.
O desespero e gritos das pessoas me entusiasmaram de certa forma que cheguei a subir em uma árvore que ficava próxima do prédio para poder ver as pessoas queimando, lá dentro. Homens, mulheres, adultos, idosos e crianças corriam, gritavam e queimavam em todos os cantos do salão, o que me deixava excitado.
De repente uma explosão que estraçalhou todos os vitrais me atirou no chão. Parte do teto da igreja desabou. Os gritos cessaram. Um cheiro de carne queimada inundava o lugar.
Gargalhava. A situação me agradava. O desvairamento da situação me fazia gritar entusiasmado: “queimem! Queimem bastardos!”.
O comissário, que não tinha comparecido à reunião, apareceu, após alguns minutos, tendo visualizado as chamas de longe.
Vendo a minha situação e ouvindo os meus brados, o comissário que era provido de uma inteligência enorme, soube, ali, que eu causara o incêndio. Correu em minha direção, com as algemas abertas e em punho. Prendeu-me. Não liguei – estava em transe.
Apesar de seu tamanho e força, estava penando para conseguir me tirar das proximidades do incêndio: eu queria vê-lo.
Ele havia me arrastado uns 50 metros quando vi algo que me aterrorizou de forma tão grande que me trouxe de volta a realidade, cessando todos os meus sentidos, excetuando a visão, inclusive o coração: pelo espaço do telhado que cedeu, de onde surgiam labaredas de fogo, levantou voo uma criatura que não sei explicar o que era. Parecia um homem. Um homem alado. Parou alguns segundos em meio às chamas, me encarando. Um olhar monstruoso, gélido e penetrante. E parecia sorrir ao mesmo tempo em que parecia sério. Sumiu num piscar de olhos.
Tal visão me estremeceu de certa forma que comecei a vomitar. O comissário me soltou, para não ser atingido pelos jatos.
Espanto! Em meio ao meu vômito e a muito sangue, pedaços de entranhas e de um coração mal mastigado - O ASSASSINO ERA EU!
Não tive mais tempo de pensar. O comissário me espancou até eu desfalecer. Acordei trancafiado nessa cela, sozinho.
A inquisição foi chamada em caráter de urgência – ouço os passos de meus algozes pelo corredor e, em pouquíssimo tempo, não mais estarei aqui – Minha pira já foi montada.
Meu ultimo desejo foi algo em que pudesse escrever e uma caneta. Isso para que, sabendo de minha história, possa me ajudar a saber – onde quer que eu esteja – : O que vi? Um anjo? Ou será que foi um demônio? Eu fui possuído? Enlouqueci? Teria imaginado isso?
A chave estala na porta.