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domingo, 23 de outubro de 2011

O Jardim


Existe um jardim antigo com o qual às vezes sonho,
sobre o qual o sol de maio despeja um brilho tristonho;
onde as flores mais vistosas perderam a cor, secaram;
e as paredes e as colunas são idéias que passaram.

Crescem heras de entre as fendas, e o matagal desgrenhado

sufoca a pérgula, e o tanque foi pelo musgo tomado.
Pelas áleas silenciosas vê-se a erva esparsa brotar,
e o odor mofado de coisas mortas se derrama no ar.

Não há nenhuma criatura viva no espaço ao redor,

e entre a quietude das cercas não se ouve qualquer rumor.
E, enquanto ando, observo, escuto, uma ânsia às vezes me invade
de saber quando é que vi tal jardim numa outra idade.

A visão de dias idos em mim ressurge e demora,

quando olho as cenas cinzentas que sinto ter visto outrora.
E, de tristeza, estremeço ao ver que essas flores são
minhas esperanças murchas – e o jardim, meu coração.


(H.P. Lovecraft)

domingo, 17 de julho de 2011

A Mariposa


Queria ficar sozinha. Principalmente depois daquela semana – a pior de sua vida, segundo ela. Cobranças, discussões e brigas eram algumas das suas principais pressões para desejar aquilo. E vinham de todos os lados: família, trabalho, amigos, colegas, namorado… Todos estavam contra a pobre Patrícia. E o pior é que ela nem sabia o porquê ou o que eles queriam. E, por isso, queria ser deixada em paz, para poder aliviar-se de toda essa pressão que vinha sofrendo.
Certa noite, após uma feia briga com os pais, foi dormir triste e cheia de raiva. E não com raiva só de seus pais, mas sim de todos que a cercavam. Se era pra viver daquela forma, preferia que eles não existissem. Só isso desejava naquela noite. Ficar sozinha e mais nada.
E seu desejo era tão grande que chegou a sonhar que estava sozinha. E, em seus sonhos, tudo era alegria e cores. Visões melodiosas envolviam-na, fazendo-a sentir-se livre: podia voar – os pesos que a prendiam à terra não existiam.
E então, em meio àquela viagem onírica, lembrou-se de que tudo aquilo não passava de um sonho. E, em sonho, despencou dos céus, com suas asas em chamas e os olhos cheios de lágrimas. Mas as lágrimas rompiam o surreal, estendendo-se à realidade da jovem Patrícia. Chorava. Desejava não ter ninguém com quem brigar. Ninguém que a sufocasse. Desejava ficar sozinha e só isso.
O sonho é algo espantoso. Às vezes rompe totalmente com a realidade – e de tal maneira que, ainda dormindo, percebemos que um sonho se desenrola. Mas, em outras, se aproxima de tal forma do real, que chegamos a sentir até cheiros, sabores e textura. São quase que impossíveis de se distinguir da realidade.
Há alguns casos, ainda, onde revivemos fatos nos mínimos detalhes. E também, outros, em que, percebido após sua concretização, ainda viveremos. No entanto os sonhos da bela jovem tinham um quê a mais: um quê de desejo. Um desejo ardente. Uma chama na escuridão da noite.
Fato é que muitos seres sentem-se atraídos pela luz. A mariposa, por exemplo.
Só que é fato, também, que ela acaba se expondo e ficando vulnerável por essa atração. Predadores escondem-se por detrás das sombras que a luz propaga – sempre à espreita.
E quem, de ouvidos em pé, a espreitava nas sombras, era o Mestre dos Desejos: como quem apanha uma mariposa se batendo contra a luz com um frasco, ouviu-a. Assim, “capturou-a”: sem nada saber, a jovem que desejava ficar sozinha, foi atendida.
Acordou e dirigiu-se para a cozinha. Não havia café pronto. Ficou indignada com os pais, que levantavam antes dela.
Saiu sem nada comer e dirigiu-se para o ponto de ônibus. Esperou, sem notar que não havia um único ser vivo se movendo por perto. Estava possessa pela situação que passava e pela “ingratidão” de seus pais.
Após uma hora de espera, e já atrasada, resolveu seguir a pé. Estava cega de raiva. Não notava que o grande fluxo de carros e pessoas, comum a esse horário, não existia.
Chegando a seu local de trabalho, encontrou tudo aberto e ligado, mas sem ninguém ali. Tentou encontrar os seus companheiros de trabalho, tentando imaginar “que tipo de brincadeira seria essa”. E, obviamente, sem sucesso.
Saiu do prédio, correndo, e ficou desesperada ao perceber que não havia absolutamente nada se movendo. Era como se, do nada, todos tivessem sumido. E não era isso que ela desejava?
Voltou para casa. Estava em pânico. E seus pais? Estariam em casa? Estariam no trabalho? Estariam bem? Chegou e entrou correndo em direção ao quarto dos pais. Não estavam lá. Mas seus documentos, carteiras bolsas… tudo estava ali. Tudo, menos eles.
Tremia. Teria enlouquecido? Estaria sonhando? Sim! Um sonho! Um sonho, daqueles bem reais! Não, um sonho não: um pesadelo. Isso! Queria acordar. Mas como fazê-lo? Sentou-se. Respirou fundo. Tudo era real demais! E se aquilo não fosse só um sonho? Tentou afastar esse pensamento. Dormir. Isso! Dormiria e, quando acordasse, o pesadelo teria acabado. Ou, então, seus pais teriam tempo de chegar. Estivessem onde estivessem.
 Foi até a farmácia da casa e engoliu diversos comprimidos, sem nem ler para o que serviam. Se tudo era apenas um sonho, não lhe fariam mal. Além disso, remédios dão sono, não é?
A jovem foi acometida por uma pesada sonolência em pouco tempo. E desabou. Dormiu por quase um dia todo, devido aos remédios.
Ao acordar, seu terror foi ainda maior do que antes: percebeu que, de uma forma impossível e sobrenatural, todas as pessoas haviam desaparecido. Na cidade toda. Talvez, até, no mundo todo. Como aquilo poderia ter acontecido?
Rindo, o Mestre dos Desejos se perguntava “mas não era isso o que queria?”, enquanto assistia a mariposa batendo-se, desesperada e ensandecidamente, dentro do frasco, até que acabasse por se matar, exaurindo as suas últimas forças. E sem saber o que a prendia.

sábado, 25 de junho de 2011

Tão Grande Como Castilha


Se crês que tudo que tens escutado
Não tem contigo nada a ver
Estás, amigo, equivocado
Para e veja, para e veja

Todos sonhamos em ser
Um cavaleiro e ter
Algo por que lutar
E um amor que defender

Se tens um ideal, um princípio
Defende-o e aferra-te a ele
Alguém escreveu que a vida é sonho
E os sonhos, sonhos são

Sê rebelde como o mar
Sê nobre porque no final
Desta vida levarás
Tua liberdade

Não importa o quão louco te achem todos
Mantém-te firme, mantém-te em pé
Buscar teu lugar, encontrar-te a ti mesmo
É tua missão, é a razão

Grita ao céu que não
Queres ser só um mais
Grande é Castilha e o Sol
Que teu caminhar guiará

(Ancha es Castilla - Mago de Oz)


domingo, 5 de junho de 2011

Vincent

(poema [legendado] narrado pelo próprio Vincent Price)


Vincent Malloy is seven years old
He’s always polite and does what he’s told
For a boy his age, he’s considerate and nice
But he wants to be just like Vincent Price

He doesn’t mind living with his sister, dog and cats
Though he’d rather share a home with spiders and bats
There he could reflect on the horrors he’s invented
And wander dark hallways, alone and tormented

Vincent is nice when his aunt comes to see him
But imagines dipping her in wax for his wax museum

He likes to experiment on his dog Abercrombie
In the hopes of creating a horrible zombie
So he and his horrible zombie dog
Could go searching for victims in the London fog

His thoughts, though, aren’t only of ghoulish crimes
He likes to paint and read to pass some of the times
While other kids read books like Go, Jane, Go!
Vincent’s favourite author is Edgar Allen Poe

One night, while reading a gruesome tale
He read a passage that made him turn pale

Such horrible news he could not survive
For his beautiful wife had been buried alive!
He dug out her grave to make sure she was dead
Unaware that her grave was his mother’s flower bed

His mother sent Vincent off to his room
He knew he’d been banished to the tower of doom
Where he was sentenced to spend the rest of his life
Alone with the portrait of his beautiful wife

While alone and insane encased in his tomb
Vincent’s mother burst suddenly into the room
She said: “If you want to, you can go out and play
It’s sunny outside, and a beautiful day”

Vincent tried to talk, but he just couldn’t speak
The years of isolation had made him quite weak
So he took out some paper and scrawled with a pen:
“I am possessed by this house, and can never leave it again”
His mother said: “You’re not possessed, and you’re not almost dead
These games that you play are all in your head
You’re not Vincent Price, you’re Vincent Malloy
You’re not tormented or insane, you’re just a young boy
You’re seven years old and you are my son
I want you to get outside and have some real fun.

”Her anger now spent, she walked out through the hall
And while Vincent backed slowly against the wall
The room started to swell, to shiver and creak
His horrid insanity had reached its peak

He saw Abercrombie, his zombie slave
And heard his wife call from beyond the grave
She spoke from her coffin and made ghoulish demands
While, through cracking walls, reached skeleton hands

Every horror in his life that had crept through his dreams
Swept his mad laughter to terrified screams!
To escape the madness, he reached for the door
But fell limp and lifeless down on the floor

His voice was soft and very slow
As he quoted The Raven from Edgar Allen Poe:

“and my soul from out that shadow
that lies floating on the floor
shall be lifted?
Nevermore…"


(Tim Burton)

quarta-feira, 1 de junho de 2011

O Gato Sou Eu


- Aí então, eu sonhei que tinha acordado. Mas continuei dormindo.
- Continuou dormindo.
- Continuei dormindo e sonhando. Sonhei que estava acordado na cama, e ao lado, sentado na cadeira, tinha um gato me olhando.
- Que espécie de gato?
- Não sei. Um gato. Não entendo de gatos. Acho que era um gato preto. Só sei que me olhava com aqueles olhos parados de gato.
- A que você associa essa imagem?
- Não era uma imagem: era um gato.
- Estou dizendo a imagem do seu sonho: essa criação onírica simboliza uma profunda vivência interior. É uma projeção do seu subconsciente. A que você associa ela?
- Associo a um gato.
- Eu sei: aparentemente se trata de um gato. Mas na realidade o gato, no caso, é a representação de alguém. Alguém que lhe inspira um temor reverencial. Alguém que a seu ver está buscando desvendar o seu mais íntimo segredo. Quem pode ser essa alguém, me diga? Você deitado aí nesse divã como na cama em seu sonho, eu aqui nesta poltrona, o gato na cadeira… Evidentemente esse gato sou eu.
- Essa não, doutor. A ser alguém, neste caso o gato sou eu.
- Você está enganado. E o mais curioso é que, ao mesmo tempo, está certo, certíssimo, no sentido em que tudo o que se sonha não passa de uma projeção do eu.
- Uma projeção do senhor?
- Não: uma projeção do eu. O eu, no caso, é você.
- Eu sou o senhor? Qual é, doutor? Está querendo me confundir a cabeça ainda mais? Eu sou eu, o senhor é o senhor, e estamos conversados.
- Eu sei: eu sou eu, você é você. Nem eu iria pôr em dúvida uma coisa dessas, mais do que evidente. Não é isso que eu estou dizendo. Quando falo no eu, não estou falando em mim, por favor, entenda.
- Em quem o senhor está falando?
- Estou falando na individualidade do ser, que se projeta em símbolos oníricos. Dos quais o gato do seu sonho é um perfeito exemplo. E o papel que você atribui ao gato, de fiscalizá-lo o tempo todo, sem tirar os olhos de você, é o mesmo que atribui a mim. Por isso é que eu digo que o gato sou eu.
- Absolutamente. O senhor vai me desculpar, doutor, mas o gato sou eu, e disto não abro mão.
- Vamos analisar essa sua resistência em admitir que eu seja o gato.
- Então vamos começar pela sua insistência em querer ser o gato. Afinal de contas, de quem é o sonho: meu ou seu?
- Seu. Quanto a isto, não há a menor dúvida.
- Pois então? Sendo assim, não há também a menor dúvida de que o gato sou eu, não é mesmo?
- Aí é que você se engana. O gato é você, na sua opinião. E sua opinião é suspeita, porque formulada pelo consciente. Ao passo que, no subconsciente, o gato é uma representação do que significo para você. Portanto, insisto em dizer: o gato sou eu.
- E eu insisto em dizer: não é.
- Sou.
- Não é. O senhor por favor saia do meu gato, que senão eu não volto mais aqui.
- Observe como inconscientemente você está rejeitando minha interferência na sua vida através de uma chantagem…
- Que é que há, doutor? Está me chamando de chantagista?
- É um modo de dizer. Não vai nisso nenhuma ofensa. Quero me referir à sua recusa de que eu participe de sua vida, mesmo num sonho, na forma de um gato.
- Pois se o gato sou eu! Daqui a pouco o senhor vai querer cobrar consulta até dentro do meu sonho.
- Olhe aí, não estou dizendo? Olhe a sua reação: isso é a sua maneira de me agredir. Não posso cobrar consulta dentro do seu sonho enquanto eu assumir nele a forma de um gato.
- Já disse que o gato sou eu!
- Sou eu!
- Ponha-se para fora do meu gato!
- Ponha-se para fora daqui!
- Sou eu!
- Eu!
- Eu! Eu!
- Eu! Eu! Eu!


(Fernando Sabino)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

E.A. Poe

"Quem sonha de dia tem consciência de muitas coisas que escapam a quem sonha só à noite." 


(Edgar Allan Poe)